tô com marte na macaca

 

macaca

 

Você me ameaça e envenena
chantagem de luto e escassez
E eu, só de pirraça,
não caio nenhuma vez.
Você diz que a coisa é séria
faz cara de sisudez
Eu concordo, é séria mesmo
mas fio e confio, ao invés.
Você gosta de ser VIP,
eu quero pra todo mundo
Você vem com dados pobres,
eu te devolvo futuros
Você quer o meu deserto,
eu te dou uma floresta.
Você vive numa guerra
Eu gosto de amor e festa.


Mas você me chamou pra briga,
então aguenta esse encosto:
que agora não largo esse osso
e não estou sozinha nessa.

 

uma fera por dia

Outro dia, tava assistindo com os meninos As Crônicas de Nárnia. Era a primeira vez deles, e por incrível que pareça (porque eu amo esse tipo de história) para mim também. Para quem não é iniciado nesse universo, essa é uma série de livros (que viraram filmes) sobre quatro irmãos que descobrem a passagem para um reino fantástico, repleto de aventuras. (quem quer saber mais siga o link)

Como em todo filme de aventuras que se preze, ele é repleto de muitos desafios. No primeiro da série, num dado momento, cada um dos irmãos recebe um “presente”, um instrumento que possa utilizar para enfrentar os perigos. Pois bem, o mais velho deles, chamado Pedro, ganha uma espada. E só sobre ele o assunto.

Pra que serve uma espada? Pra se defender, claro.

E para matar.

Matar?

Pois é.

Tenho pensado muito nas histórias de hoje. Obviamente, sendo mãe de 3 meninos, reparo muito nos personagens masculinos, os tais guerreiros. A serviço do que estão? De que discurso? Que ideologia eles sustentam, maquiados nessa coragem extrasupermegablasterheróica?

Mas daquela história eu estava gostando, e testemunhando o Pedro, meu filho, agora com 8 anos, torcendo pro xará dele. E eu torcendo pro enredo me surpreender e não reproduzir o discurso “você-fez-por-merecer-a-sua-morte-seu-modafoca”.

Os inimigos eram feras. Feras más.

Eles avançaram contra Pedro. Provocaram. Incitaram-no a usar sua espada. Ele não a puxou da bainha. A natureza se encarregou de separar o conflito.

Ufa.

Mas claro, surgiu novamente o perigo. Novamente, as feras atacaram. Dessa vez era vida ou morte. Novamente, Pedro se viu no mesmo dilema.

Sem lhe dar muito tempo, a fera pulou por cima dele. Pedro puxou a espada, que acaba rasgando o corpo do animal.

A fera morre.

A espada matou.

No silêncio pós-dramático da sala, eu me pergunto: E agora? O que os meninos acharam disso?

E como quem me lê no silêncio, Pedro diz: Ele virou adulto, né, mãe?

(sem mais.)

 

leaonarnia

um quase solstício

lanterna

 

… e então ele vem chegando…

com seus mistérios, temores revelados, longas noites…

(enquanto, lá em cima, estrelas secretamente nos guardam)

Frio fora.

Obscuro,

sombras maleáveis.

E da escuridão mais profunda, surge a chama.

Sol que brota por dentro: Luz divina, inabalável,

e chama, chama,

nosso destino,

à nova Terra.

 

uma ponte ao país dos exílios

nem sete, nem um

nem colo constante, nem domínio das letras

nem grande nem pequeno

só o segundo.

 

Não importavam as tantas histórias que eu lhe contava. nada resolvia.

queria mudar de nome, de mãe (surpreendi-me atordoada nessa brincadeira)

mudava de lugar à mesa, buscando nas brechas o que ainda era mutante.

banido de si, nenhuma atenção bastava.

 

(eu que sei desses estados nômades, contemplava minha impotência diante do seu terremoto.)

 

Estava insuportável.

era um pedido de socorro de um náufrago que atirava nos barcos que tentavam lhe prestar socorro.

nós – o pai e eu – declaramos nossa impaciência: o que mais falta fazer?

 

depois, nossa ignorância.

 

Até que também nos reconhecemos nesse lugar de despertencer,

nessa ilha de desassossegos,

e acolhemos o insuportável de nós mesmos banido pra lá de nossos cantos

(havia em mim tanto exílio, e nesse muito, não sei porque, algo nele se reconhecia.)

 

Então consegui dizer a partir de um outro lugar: eu te amo mesmo assim, quando você faz isso.

 

Passaram-se alguns dias

ele novamente quis saber: você me ama mesmo quando está brava comigo?

 

Eu nunca vou deixar de te amar, nem no dia em que eu estiver muito muito muito brava com você. você é meu filho querido, e nunca vai sair do meu coração.

 

A gente nunca sabe qual é o ato que desencanta a dor. Na hora. nem tive pretensão, fui sincera e só. Sem saber, apertei o botão que procurava.

 

Então o vento mudou

ele montou em seu barco

e voltou pra casa.

 

gabribarco

em :p arto

suportar

a dor da partida

até que se cumpra o destino fiado.

Com fiar,

na mesma medida

com um pé sem apoio e um passo já dado.

tremer

saber-se incerta

e ver que lá dentro é estranha a morada

habitar

acalmar pensamento

ainda que a carne pareça rasgada

desenhar

num raro silêncio

a linha que escreve o próximo ato

desnudar

em três movimentos

o mar que transborda com sede de praia

acordar

em lúcidas horas

sabendo-se errante sem mapa nem nada

escutar

em ruído constante

a voz que me envia pra terra sagrada

 

receber

na dor de quem pare

o novo que chega da morte iminente

entregar

ainda que tarde

ilusão de que a vida é só pensamento

abraçar

no corpo da gente

o ser que em chegança me pede um abrigo

embalar

num canto-lembrança

tirando da história o terror do castigo

 

mais errar

como erra, criança

a súbita cria tomada de vida

 

e criar

entendendo, na dança,

o tom de uma história não mais dividida.

 

 

acordando pra vida

Acordei ainda tonta. há poucos segundos, vivia numa espécie de ditadura.

Sem recursos. Sozinha. Controlada por homens terríveis. Na beira do fim do mundo. O Horror.

O sobressanto trouxe de volta a lucidez. Então me perguntei o que me fez ter sonhos assim. Não, não é óbvio: o resultado das eleições é uma coisa, minha interpretação dos fatos é outra.

Percebi que o MEDO que teceu esse pesadelo é o mesmo que moveu muitos de nós em direção às urnas. o MEDO que a água acabe, que só a polícia sobre (no meu caso), de que a situação não mude (como não, se a vida é mudança?), que os recursos se esgotem, bla bla bla. E pior: medo que o bando oposto ao meu seja a razão da minha desgraça.

Embarquei nessa viagem de ódio.

Embalada nesse “espírito esportivo”, fiz prognósticos fatalistas. porque meu time perdeu.

E hoje, ao sonhar (pesadelar) com um real estado de ditadura, percebi o quanto eu estava sendo leviana, o quanto estava desonrando, inclusive, vários que acreditaram na liberdade quando a situação era mais dura, e deram a vida para que eu pudesse ter autonomia. Tantos que acreditaram e construíram uma realidade mais libertária, e eu aqui de mimimi. reclamando ao SAC catártico das redes sociais, chamando, sem perceber, um estado ainda pior de coisas.

Eu aqui, reclamando porque fui boazinha e não ganhei o pirulito.

Acordei.

Percebi a necessidade de sair dessa corrente de medo, de futurismos fatalistas, e acreditar que a vida é bem maior que essas manipulações dos que se dedicam a formar bandos opostos. Porque acreditar nesse futuro trágico é implantar um tumor silencioso e traiçoeiro que, aos poucos, corrói o próprio destino, nos afasta da nossa coragem e dá a um suposto “opressor” – alguém nem tão diferente de nós – o poder de tecer as histórias que nos conduzem.

Decidi honrar a história de todas e todos que colocaram suas vidas a serviço do amor e da liberdade, honrar o destino que quero ter, e isso só é possível tomando a vida nas mãos, sem acreditar em heróis nem em opressores. Sem ficar xingando o “povo”que vota “errado” (errado=diferente de mim).

Nada está pronto. É o contrário do que está escrito nas embalagens.

E isso é bom.

o abraço que mora nas bordas

Sim, tem limite.

É necessário ter.

Mas eu achava que não. É claro, a última memória de ser filha pousava na adolescência, época de romper tecidos, de sair da casca.

Da primeira infância, eu pouco lembrava ao virar mãe. Então não entendia que, para ser irreverente, era necessário primeiro reverência. Que para romper a pele, é necessário suporte.

Isso pode, isso não pode. 

Isso sim, isso não.

corte. frustração.

No começo, tentava outra coisa: negociação. adulação.

Por fim, competição. Sem saber, chorava mais que a criança sedenta de bordas. Reclamava cansaço. Fugia pro espaço (sideral ou virtual). Tinha impulsos consumistas, trocava coisas por sossego: da bolachinha açucarada ao brinquedo psicotrópico, as babás eletroeletrônicas, os passeios estrambóticos.

Mas nada tinha fim.

Nada era suficiente.

Porque eu, no meu desespero infantil, na dor do meu abandono,

dava tudo, menos o fim.

Tudo menos a contenção.

Dava presentes, mas não a presença.

Pedia silêncio e dava ruído.

Acreditava-me frágil, mas não percebia o óbvio: que estávamos em times diferentes, as crianças e eu.

(ou contra mim.)

Eu, vítima dos meus próprios rebentos.

Eu, mulher feita, profissional, inteligente, descolada, amorosa, com resposta pra tudo, sem resposta pra nada, desolada, rendida, irritada.

 

eu, eu, eu.

eu, eu, ai de mim.

 

Não consegui.

Eu explodi.

 

Reconheci meus limites,

aterrei na presença,

dei o que ainda não queria dar, e era a única coisa que eles pediam: a verdade.

dei o que me era mais caro: a frustração de aguentar frustrar, de não me sentir amada (admirada?), boazinha.

 

Aceitei o fato de que era eu a única pessoa que poderia dar a eles a insatisfação das bordas.

( e aí percebi que isso era bem mais que um abraço.)

Mas que também, depois, em consolo, poderia virar abraço.

(forte, profundo lastro)

E as contenções verdadeiras, postas em coragem, abriram meu coração pro amor maior. E aí sim o abraço era acolhida. Reconhecimento mútuo da dor e da alegria de estar aqui, em pele, peito e presente.

“sim, meus queridos. às vezes dói, às vezes espanta, mas é lindo, lindo viver.”

 

E então não éramos mais eles e eu.

Éramos nós

Doce egrégora aprendendo juntos

um melhor ser.

 

um ano de Francisco

foi hoje do ano passado

hoje é chuva,

lá era sol.

mas chovia dentro das veias, eu cachoeirava pelas ventas

t(r)emia nem tanto a dor conhecida, mas a certeza de que você traria atado aos pés um certo tipo de bússola

eu já sentia esse norte apontando com você ainda no ventre

sabia que a vida caminharia pros eixos

sabia que sua existência me cobraria harmonia

e como temer tudo isso?

(não é lógica, é inércia)

e você esperou, paciente, que eu terminasse minhas guerras. esperou que eu gritasse por socorro. esperou que meu orgulho cedesse. esperou que eu desistisse de tudo o que achava ser chão, até que a terra verdadeira me amparasse pelos braços

você esperou, paciente, que a Mãe chegasse à nossa casa

e ela se apresentou

e ela me acalantou

para que eu tivesse forças pra te conduzir e embalar

e ela me encantou

e ela me transformou

até que eu, feita terra,

em terremoto me abri.

 

até que eu, frente à fera,

fiz a entrega e parti.

 

e então,

e só então

você chegou

 

e eu morri.

 

(feliz primavera, caçulinha amado!)

 

chegada de Francisco