reaprendendo como se começa o eu

GABRIEL:

mamá.

(depois…fase Yoda.)

mamá qué

 (depois…evolui:)

qué.

eu qué.

qué. qué. qué. (não se sabe o que. é só um querer. às vezes, direcionado a algo concreto, às vezes a nada específico.)

palavras que nasceram praticamente juntas,

crescem juntas,

té longe na vida: eu qué.

uma sombra violeta

Eu não sou atriz. É assim que eu me defendia de ser (atriz, e outras demais coisas: eu não sou).

Aí, no curso de pós em direção teatral (do Célia Helena), a gente ia ter que atuar. Era um exercício pra aula do Marco Antônio Rodrigues. Eu até poderia dirigir ao invés de atuar, mas uma coisa maior que minha ranhetice (que disfarçava minha vergonha, que disfarçava meu medo, que disfarçava….) me jogou na corrente. Boralá atuar.

Danilo Moreno seria o diretor. Figura linda, vinda de outros cantos (Recife, Rio, outras paragens). Karina, psicanalista, e Jacqueline, única atriz entre as atrizes, completariam comigo o elenco. Entre as escolhas possíveis de texto, ficamos com Plínio Marcos, o Querô. Quem conhece sabe que não é bolinho: da classe média ao cais de Santos. Chão, chão, chão. Lama, lama, lama. Nós três, poéticas, lendo Clarice, imagine… Mas foi uma escolha.

Das personagens possíveis, me coube a Violeta, cafetina, dona do puteiro, proprietária e exploradora da mão de obra (corpo) alheio. Ou, nas palavras de Leda, a outra personagem, prostituta-mártir de Plínio: machona, greluda. E eu, pesquisando o sagrado feminino, a sexualidade transcendente… fui dar com a sombra de tudo isso.

Numa semana, mergulhamos fundo. Numa semana, nos deixamos, entre encontros e polêmicas, nos conduzir pelas imagens delirantes do Danilo. E eu mergulhei na dor daquela criatura, daquela figura, mergulhei no ressentimento que poderia transformar uma mulher no reverso de si. Dei as mãos a Violeta, aceitei sua existência. Descobri parte de sua voz, parte de um riso funesto que me fez tremer. Vivi parte de uma dor, e digo parte porque só toquei com os pés esse oceano, mas senti essas águas geladas.

Na hora da cena, fui pra lá. Se pensasse, não faria. Me entreguei a ela, ao ponto de não me reconhecer. Depois soube que essa foi a impressão de vários colegas: demoraram para me perceber ali. Eu, não-atriz, a não-puta, me tornei a sim…simultaneidade de possibilidades. Sim ao avesso do que aspiro. Sim à sombra das mulheres, sim ao que lhes torna feridas, humilhadas, submissas e finalmente, também carrascas e castradoras.

Trouxe à tona, à luz. Aceitei. Curei, assim, essa parte de mim. Ainda tremo com ela, tremo de medo, mas sei o seu rosto, seu nome, sua voz, seu grito.

Obrigada, Plínio, por nos trazer esse mundo desprezado. Obrigada, Danilo, Jacque, Karina, companheiros de nau, pela confiança mútua. Obrigada, teatro, por abraçar do baixo ao sublime, por abraçar a todos nós, em sorrisos e dores.

crônicas de Kung Fu III – andando em passos alheios

Noutro dia, chegou meu uniforme, e fui surpreendida por uma alegria de criança que ganha um brinquedo esperado. A indumentária, afinal, é importante na forma. Vesti a roupa com orgulho e o desajeito da primeira vez.

Gongo. O sapato ficou apertado. Meu pé é largo e alto, incompatível com sapatilhas chinesas. Dei de brava e segui em frente, até perceber que seria uma idiotice sentir uma dor pontual que me prejudicava o movimento. Fiz o resto da aula descalça, meio contrariada, meio incompleta.

Ao final de tudo, no vestiário, fui surpreendida por um presente. A Aline, que já treina há cinco anos, “irmã mais velha”, na linguagem do Núcleo 7 Esferas do Tao, me deu uma sapatilha antiga, que ela usava antes de comprar a mais recente.

– Aqui a gente tem esse hábito de passar as coisas adiante – ela disse, provavelmente respondendo à minha cara de espanto.

Aceitando o presente, passei a treinar com ela, o que me gerou um sentimento interessante: pisar com o pé alheio. Meus pés experimentaram a memória de outras pegadas, de caminhos já percorridos. Aquilo, não sei por que, me encheu de ternura. Um agradecimento pelos percursos e formas há muito aperfeiçoadas, pela ancestralidade daquelas práticas que cruzaram mares e séculos até chegar a mim, em 2010, nesse tempo.

Eu, que sou filha mais velha, pude sentir a delícia de ter  irmãos mais velhos. Pude experimentar a herança de receber roupas alheias, já carregadas de algum sentido, e passadas adiante com carinho. Agradeço a paciência e a generosidade dos meus “irmãos de treino”, por passarem um conhecimento milenar adiante, hoje, aqui, em pele contemporânea.

E eu, que sempre conduzi a brincadeira, eu, sempre a primeira, pude experimentar a calma de ser quem vem depois, de quem aprende e joga junto. Em conjunto. Em irmandade.

Da relação mágica com o mundo ao mundo mágico do cinema

Escrevi esse texto há uns 3 anos, quando orientava um grupo de estudo e produção audiovisual, o Kinocélula. Hoje, como uma das orientadoras do Laboratório de Audiovisual da ESPM (com o mesmo tesão, mas com mais gente e estrutura), me deparei com um momento em que ele novamente se fez presente. Atualíssimo, como se fosse hoje. E, novamente, agradeço aos meus alunos atuais por serem motivo de tantas reflexões, por me fazer, continuamente, rever minhas posturas e certezas. Na festa e nos conflitos, na ordem e nas desordens.

Dedico essa reflexão ao Kinocélula, e ao que venho aprendendo com os alunos desde que começamos esses encontros na ESPM. Porque além de fazer cinema, uma das melhores escolas de cinema é dar aulas de cinema. Desculpe a redundância do termo, mas é assim. Aprende-se muito passando adiante o que se sabe.

De tantos aprendizados, reflito agora sobre um: o fazer do próprio artista. Aqui não falo do profissional, do técnico, do funcionário. Mas do artista.

Tudo parte, primeiro, de uma relação mágica com a arte. Ninguém que se aventura nesse campo sabe definir racionalmente porque o faz, simplesmente se sente movido por uma força da natureza, às vezes até contrária à razão dos tempos, à praticidade da vida e às crenças vigentes, especialmente as que prezam pela segurança. Não, a arte não é um lugar seguro. Pelo contrário, o lugar para onde vamos é assustador e solitário à primeira vista, e somente se tivermos a firmeza interna de continuar é que encontramos a matéria-prima da concepção genuína. Todo o resto é cópia, e por mais bem realizada que seja, não faz tanta diferença no passar do tempo.

Mas voltemos à relação mágica com a arte. A princípio, quem se aventura primeiramente foi raptado. Em algum momento, seja por um filme, música, uma frase, foi abduzido a esse mundo e voltou diferente. No meu caso, o simples ruído do projetor na sala de cinema já era o portal para alguma felicidade: algo me seria contado, uma história, eu seria magicamente transportada para algum universo. Durante aquele tempo do filme, eu não mais seria eu, mas alguém na tela, em outro lugar, em outro tempo. E essa suspensão dionisíaca me faria sonhar acordada e me levaria também a outros lugares de mim.

Eu poderia continuar assim. Uma amante.
Isso faria de mim uma cinéfila, não uma cineasta.

Mas por alguma razão inexplicável, algo me chamou para ser uma realizadora. E, apesar de toda a mística em torno disso, todo o prestígio criado pelo meio, esse não é um lugar confortável. Porque, para começar, tive que abrir mão da minha relação mágica com o próprio cinema, desvendar o mundo atrás das cortinas, atrás das câmeras. Perceber que as histórias não nascem prontas, que os filmes não se fazem como por encanto, mas às custas de muito suor, trabalho, frustrações, fracassos e, sobretudo, medos. Especialmente o medo de não ser compreendida.

Assim, para me forjar cineasta, tive que abandonar o éden da poltrona do cinema. Tive que me submeter aos ácidos nessa alquimia da transposição de amante a artista. Em vários momentos, precisei acreditar quando ninguém acreditava, nem mesmo uma parte de mim que buscava o caminho mais fácil. Em outros momentos, tive que, humildemente, reconhecer que ainda não havia chegado onde queria, me desapegar do feito e recomeçar. Em vários momentos desisti, e graças a essa correnteza inexplicável que acabei chamando destino, fui jogada de volta ao furioso rio de minhas criações.

Até que, nesse turbilhão, colhi alguns frutos. E ao contrário do que se pensa, eles não são os aplausos. São o silêncio de quem não consegue achar palavras rápidas para definir o que viu, ou melhor, sentiu, ao assistir o resultado de tanta batalha. Porque aplausos rápidos e palavras rápidas vêm de lugares confortáveis, mas quando o espectador é também raptado, volta como que entorpecido.

Nada disso se faz facilmente. Como por encanto. A mágica está na tela, mas realizá-la nos coloca em situação de perder a relação mágica com o mundo. E não estou falando da relação lúdica com o mundo, mas de uma falsa crença de que as coisas serão feitas por si mesmas – um resquício do mundo infantil que ainda carregamos. Olho com esse impulso! É ele quem nos leva aos lugares fáceis, quem nos faz desistir na primeira dificuldade, e, principalmente, quem nos faz distorcer um primeiro impulso inovador, em geral ainda estranho, pelo receio de não ser aceito.

Sinceramente, acho melhor errar feio buscando algo inovador do que acertar fazendo o mesmo com roupagens novas. Porque para cada “acerto”, há muitos fracassos. E só quando perdemos o medo do fracasso, superamos esse medo infantil de não agradar, é que ganhamos a firmeza e a maturidade que um artista verdadeiro necessita.

Por isso, sempre me pergunto se quero continuar nesse caminho. Dá trabalho entrar na noite de si. Dá trabalho lidar com esses medos, angústias. Dá trabalho resistir às crenças de sucesso, dá trabalho recomeçar sempre. Às vezes, em trégua, volto à sala de cinema e me permito mergulhar na magia. E a cada novo rapto, saio cada vez mais inspirada em novamente me meter em novas enrascadas, em um novo projeto.

Muitas vezes me perco, é verdade. Mas em preciosos momentos, percebo um encontro. Esse lugar novo que encontrei em mim reverbera em um lugar novo dentro do outro. Nesse momento, a mágica não é ilusória, é real. Vai além do entorpecimento da sala escura, é um momento que transforma.

É graças a esses momentos que eu continuo. E posso encarar mil fracassos, por mais duros que sejam, para sentir novamente esses instantes de encontro.

quem poderá me salvar?

– O que você faz?

– Eu escrevo.

– E você também trabalha?

(…)

– Dou aulas.

– Ah, tá. E trabalha em que?

(…)

– Teatro.

– Só?

(…)

– Cinema. Às vezes.

– Ah…

(…)

aprendendo a separar

o que eu quero

o que eu acho que quero

o que eu aprendi a querer,

o que eu acho que deveria querer.

(…)

e que separar não é tão fácil quanto parece,

e que essas opções não são tão claras como poderiam,

e que a mente trai o corpo, às vezes,

que os moralismos traem a gente, sempre.

crônicas de kung fu II – A gente morre (ou vive) pelo coração.

Havia uma brecha, sei lá quando ou onde. Talvez eu já tivesse dormido assim, ou sonhado com alguma coisa estranha. Nada que eu tenha conseguido pensar, ou aprofundar, ou ouvir de mim. Acordei como todos os dias, talvez mais preocupada que o habitual pelo (já quase habitual) excesso de coisas, talvez estivesse pendendo pra fora do eixo, sem guarda. Se nessas horas entra palavra estranha, que soa brusca demais pro cedo das horas, evidencia a fissura. Não sei. Mas se até vento batendo nas costas de surpresa pode dar em resfriado, torcicolo ou coisa pior, assim é a palavra dura dita de relance, ainda acordando, ainda sem estar inteira.

Assim cheguei na aula, mesmo sem saber, ou sabendo sem dar importância às coisas pequenas de sempre. O corpo acolhe tudo, a mente disfarça, finge que não. Não é nada, sempre nada, até que um dia acorda espantada com coisa antiga que queria não ver. Assim cheguei, meio quebrada no peito, por coisa pouca, pequena, cotidiana. Cansaço de coisas somadas, de excessos pendentes, de cuidados não ditos.

No meio do aquecimento, a coisa cresce. Socando o ar, em exercício, lá fui eu para o meu deserto árido das impotências. Um deserto. Tudo bem que havia o cansaço físico e a cabeça já estava atrapalhada, mas não é nessa justa hora que se abrem as portas para os invisíveis? E ainda há quem pense que viagem no espaço/tempo é coisa de máquinas. Lá fui eu, sei lá pra onde, de corpo quebrado, equilíbrio cruzado, socando inimigo impalpável e só querendo me jogar no chão, curvar o corpo em meia-lua e semente. Precisando de abraço alheio, com vergonha daquele lugar, e como é possível sentir vergonha de um desejo de amor? De acolhida? Que dureza é essa que não permite o amparo?

Até que chegou num ponto impossível de coordenar, não havia mais braços, pernas, quadris, era uma massa incontrolável querendo desaguar. O peito, coração vazio. Aí percebi que do quadril vem o movimento, e a força vem do coração. Não é frase solta, emotiva, feita, é fato real, concreto. Coração é o centro do centro, e não à toa, fica no meio de tudo, e é de onde a gente começa a existir. Um ponto que pulsa, em big bang, daí viemos. De lá somos. Sem lá, tudo se desmorona.

Uma obstetriz me fez (re)nascer

Semana passada fiquei CHOCADA com uma notícia: a ameaça de se acabar com o curso de Obstetrícia na EACH (pra quem não sabe, a unidade USP na Zona Leste). Não posso dizer que fiquei surpreendida, porque achava quase inacreditável que um curso tão revolucionário pudesse estar abrigado nos moldes quadrados da USP, mas não imaginei que chegassem a tamanha barbaridade e desrespeito. Como tive minha vida transformada pelo encontro com uma obstetriz, Vilma Nishi, seria quase uma heresia ficar quieta frente a esse fato.

Adianto que não vou partir para a briga, pelo menos aqui nesse texto. Sei que há um movimento iniciado, e mulheres e homens trabalhando para defender o tangível e o intangível do curso – porque apesar de todas as questões concretas, como número de vagas públicas, currículo e etc, há algo além para se levar em conta: a importância de se criar uma CULTURA DO CUIDAR NA ÁREA DA SAÚDE, já tão contaminada pelas doenças sociais do preconceito e do descaso. Defender esse efêmero é quase como tentar explicar a importância do canto dos pássaros no meio de uma guerra civil, parece tão vaporoso aos ouvidos surdos de quem detém o poder que sua potência pode ser facilmente desprezada. Mas é profundamente transformadora, e urgentemente necessária.

Assim como a grande maioria dos brasileiros, nasci de cesariana. Assim como a grande maioria das mulheres, minha mãe me conta que gostaria de ter vivido um parto normal. É claro que não é uma regra, mas uma estatística: o ato de nascer, que deveria ser algo absolutamente natural, virou fato clínico. É quase como se necessitássemos de um médico para colocar comida em nossas bocas.

Já aviso: não tenho nada contra médicos, cresci com um deles: meu pai. Um grande exemplo íntimo de ética e amor à profissão. Também não tenho nada contra o avanço da ciência. Só acho que um parto só está próximo disso se aparecem verdadeiras complicações, mas não deveria, nunca, ser a regra, ou a primeira opção.

E quem sou eu pra achar tanto? Nem médica, nem enfermeira, nem profissional de saúde. Se isso serve pra algo, tenho uma experiência real, talvez a mais concreta da minha vida, pra contar.

Tive dois filhos de parto normal, natural e domiciliar. E tive a coragem de viver essa experiência assim, dessa forma, pela graça do encontro com Vilma – parteira e amiga. Já durante as consultas de pré-natal (que na médica duravam 10 minutos, e com a Vilma 2 horas), conversávamos muito sobre todos os medos das complicações na hora do parto, sobre o que seria virar uma família e, principalmente, sobre o poder que a mulher conquista em viver realmente a experiência daquela forma. Quando finalmente chegou a grande hora, estava segura quanto à minha opção, e o começo foi bem tranquilo – se é que se pode usar essa palavra pra descrever um trabalho de parto. Cheguei a falar: “pensava que ia ser pior”, o que deve ter desencadeado uma piadinha dos deuses – logo depois “travei” por 7 horas, e na pior parte. Sabia, com a cabeça, o que tinha que fazer, mas o corpo não me “obedecia”. E percebi que o que me amarrava não era apenas o medo típico que todas as mulheres sentem desde sempre, mas toda a corrente de preconceitos modernos que eu também carregava que nem uma couraça, ou pior, como um carrasco colado às minhas costas, berrando: “Você não vai conseguir! É perigoso! Sua louca, vai fazer mal pra criança! O bebê pode morrer!”

Soa familiar? Contemporâneo? Não, a ditadura ainda não acabou.

Naquele momento, parecia um campo de batalha: éramos eu e meus inimigos: Medo de fracassar, medo de virar mãe, medo de ser mulher, medo da força absurda, ancestral, que pulsava dentro de mim, que carinhosamente conduzia meu corpo, que me levava a uma dimensão fora do tempo, naquele lugar onde todas as mulheres de todas as épocas se encontram e se reconhecem. Era uma grande floresta a atravessar, e só eu poderia fazer aquilo. Somente eu, só. Quer dizer, é claro que, se eu estivesse num hospital, com tudo ali, facinho, poderiam tirar a criança. Nesse caso, haveria o nascimento, bendito seja sempre, mas eu não teria cruzado o limiar.

Então num daqueles ápices, em que eu estava quase desmaiada no meio daquela guerra, contei com dois apoios: o de meu companheiro, Djair, e o da Vilma, obstetriz, parteira, que até então esperava sem a menor pressa, fazendo massagens, medindo periodicamente os batimentos cardíacos do bebê, me transmitindo calma para o meu parto. Sim, meu. Porque como ela mesma me disse, o nascimento é do filho, mas o parto é da mãe. E no momento mais crítico, naquele em que o carrasco quase ganhava a batalha, ela me disse forte e carinhosamente: Claudia, ou você dorme ou faz esse menino nascer. Naquele momento, ela quis dizer literalmente isso, mas o múltiplo sentido da frase me tocou mais fundo que o meu medo. Alguma coisa mudou. Tomei contato com toda a forca da Terra, toda a ancestralidade, entreguei meu corpo a algo maior, como uma sacerdotisa a algo sagrado. Dei passagem ao que tinha que nascer, até que morri e renasci junto com Pedro, às seis e pouco da manhã. Atravessei o portal das impossibilidades. Senti o corpo tremendo em choque e revivendo mãe. Em estado de graça, vi o Dija cortar o cordão, vi o pequeno ser que recebia em minha casa, no meu corpo, no meu seio, na minha nova vida, que nunca mais foi a mesma, porque eu não era mais igual.

Além de todos os procedimentos técnicos, o que me ajudou a fazer essa passagem foi o INTANGÍVEL do ofício de obstetriz: o amor, o cuidado e a sensibilidade durante todas aquelas horas. A fé na possibilidade de que cada mulher pode viver seu feminino, viver por direito esse momento tão importante. O apoio, a paciência, a falta de pressa. A vida sem hora marcada.

Como disse, não tenho nada a ver com a área de saúde, dedico minha vida a contar histórias em palcos, telas e blogs. Mas espero ter ajudado com essa, e que uma experiência tão pessoal possa servir como prova da importância de uma profissional que sabe conduzir um parto dessa forma, sem distorções. Um nascimento vivido assim é o começo de uma grande relação, é totalmente transformador para toda a família, fortalece laços, e traz uma base sólida para os novos seres que estão chegando, futuros adultos, futura sociedade. Tenho confiança de que esse curso vai ganhar mais força, porque a vida é maior que todas as mesquinharias, e sempre vence. Mas é essencial, em épocas de tanta brutalidade, defender as ilhas de sensibilidade já conquistadas.

IMPORTANTE: Pra quem puder ajudar, o abaixo-assinado contra o fechamento do curso está logo aqui:

crônicas de kung fu I – passando pelo portal

O corpo é mais que um tripé de cabeça.

Não que eu já soubesse, mas já desconfiava. E como vivo nesse preconceito muderno que privilegia o “pensamento”(leia-se Cabeção) como um grande chefe, e o corpo como o peão que executa as ordens, estava assim, meio largada. Claro, porque chefe que é chefe só manda, e a massa executa. Mexer o corpo é coisa de que ainda não chegou lá, no topo.

Viagem minha ou faz algum sentido?

De qualquer forma, ficava a culpa pelo sedentarismo. Culpa mesmo, dessas cristãs, que adoram o flagelo. Fugi das academias e passava de tentativa em tentativa, a maioria solitária – andar, nadar, pular. Muito efêmero tudo. E meu lado rebelde clamando por tortura nunca mais.

O Cabeção ordenava: Você tem que fazer algum exercício! O que devo fazer, senhor? Sei lá, você não gosta de dançar? Então dança! Mas dava preguiça, porque dançar só tem graça se não tiver que. Aí enganava o chefe: Sabe, senhor, é que eu tenho tanto trabalho sério pra fazer… Sou criadora, professora, orientadora, mãe, também, não sobra tempo pra essas coisas vaporosas. O Cabeção concordava, afinal, ele mesmo nem se importava tanto. Mas eu ficava ali, oprimida, fraquita, doída. E anarquista demais pra encarar um “programa de condicionamento”que, ao meu ver, é coisa de gente velha e sedentária. O Cabeção ficava feliz com essa observação. Nada melhor que ter todo o tempo do mundo pra pensar, afinal.

Uma história paralela: nunca fui alucinada com artes marciais. Meus irmãos fizeram karatê por um tempo, mas eu preferia a dança. E tive, num passado remoto, um caso de amor com a ginástica olímpica: lá eu voava. Lá o amor ao corpo existia. Depois a adolescência chegou, a culpa pelo prazer do corpo chegou, e ele passou a ser inimigo, gerador de todos os conflitos do mundo. Mas algo desse amor ficou guardado que nem semente, e às vezes remexia nas terras de mim ao ver um corpo voando – na dança contemporânea, nas olimpíadas, em alguns filmes, por aí no mundo.

Kill Bill me deixou alucinada, ainda que o Cabeção fizesse que não. De repente quis ser, secretamente, Beatrix Kiddo. Em outra vida, talvez, Cabeção vociferava. Talvez. Não. Tinha medo de fazer kung fu. Coisa de homem, meio bruta, pensava. Eu sou mocinha. Ainda por cima pesquisando o feminino, esse efêmero desconhecido tão falado no momento. Cabeção escreve uma peça sobre o feminino, e eu vou querer logo fazer kung fu? Arquétipo do guerreiro?

Confesso: tenho um prazer secreto de contrariar Cabeção, ainda que pelas tangentes. Fui lá, disfarçada de Grouxo Marx, fazer uma aula-teste. Saí feliz. Corleone, enganado, ficou confuso, mas o que eu senti foi felicidade. Sem querer,  desmoralizei, destronei o chefe. Permiti ao corpo que ele exercesse livremente o movimento que bem entendesse. Ainda que nesse começo seja totalmente destrabelhado.

Voltei à época anterior à crise do corpo, onde só havia amor, e quando eu não era tão eu, era um ser em movimento e possibilidade futura.

Não sei onde isso vai chegar, mas estou adorando.

140 caracteres

Tenho twitter, mas não uso. pelo menos, quase não escrevo nele (e acabo não entrando). Juro que não é ranhetice, mas tem a ver com: 1) uma compulsão iconoclasta de me afligir com seguidores; 2) uma rebeldia à necessidade constante, incessante e irritante (no meu caso) por quantidade e rapidez de informação e 3) os tais 140.

Quanto aos últimos, acho bacaninha – até higiênico, ecologicamente sustentável – poder sintetizar as idéias em tão pouco espaço. O problema é quando não dá. O problema é passar a pensar em 140 toques, e não ter paciência para ler 141. A gente vai sendo contaminado disso, dessa ansiedade. Eu já nem espero mais uma carta escrita a mão – já virou coisa cult, artigo de luxo – mas olha só: nem quase e-mails  eu recebo agora. Pessoais, digo. Quando vêm, até guardo de lembrança, num tipo de caixinha virtual que nem aquelas onde eu guardava cartas de amigos.

Mais de uma vez me disseram que eu “escrevo e-mails grandes”. Juro, demorei um tempo para entender –  não a informação, obviamente, mas o problema. Tolinha… E olha que nem sou daquelas traças de livro – gostaria de ler bem, bem mais do que atualmente consigo. Mas também já vivo com cinco coisas abertas, já estou contaminada pelos saltos de pensamento, pela dificuldade de me concentrar num ato único – a não ser, é claro, que a leitura tenha um poder tão grande de rapto que as vistas não se queixem de não variar o assunto.

É, realmente, uma prova de fogo pras letras. E pra emoções e raciocínios que tomam um tiquinho mais de espaço.

A tempo: gosto muito de microcontos, micronarrativas, hai kais. Tem coisas geniais feitas aí. Mas também curto livrinhos de 500 páginas, pode ser?