mãe, a nuvem é o cobertor da lua?
batatinha quando mama
Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão.
menininha quando dorme põe a mão no coração.
Francisquinho espalha a rama no meu corpo quando mama.
põe a mão na minha pele, sente o pulso do meu peito.
esparrama sua essência e se ancora em parte minha
e essa parte vira terra, pra nutrir sua raiz.
até que ele, feito árvore,
com suas ramas feitas ramos,
gere frutos pelo mundo
até que ele, feito gente,
ganhe pernas pra além-mar
mas estarei sempre entrelaçada
nessa parte minha terrena
da carne onde se geram sementes,
nessa parte vazia de mim,
onde se plantam os sonhos.
prova de cavalheiro: o embate com o gigante
ele era puro suor e febre. olhar vidrado. ele estava alucinando
era ele contra o gigante. e o bicho tinha uma faca.
ele sentia os olhos doendo, e a dor da faca do gigante em seu corpo.
eu estava preparando o banho do Francisco, seu irmão menor, e ele surge assim no banheiro, já acordado mas ainda imerso no pesadelo, apavorado, em plena iniciação.
por ação da grande mãe, Francisco estava em paz no bercinho. eu estava sozinha em casa com os 3, mas pude acolher um só na sua urgência.
entramos no banho. aninhei-o pelas costas, para que ele sentisse o manto da proteção. coloquei a mão no seu pequeno coração que batia às marteladas no seu ritmo de beija-flor.
eu não sabia ainda o que fazer, mas tinha uma só certeza: não poderia dizer “não foi nada, foi só um sonho, vai passar”. isso seria um desperdício, uma mentira, uma desonra. porque eu sabia que aquilo era MUITO forte. era uma tremenda aventura, e era o mais importante a viver naquela hora. seu mundo interno pulsava, vívido, e eu era testemunha daquele embate.
a única coisa que poderia fazer era ajudá-lo na travessia.
então, naquele abraço, coloquei-o de frente para o gigante. eu estava na retaguarda, mas ele é quem enfrentaria o perigo. Juntos, respiramos. soprei em seu ouvido o que senti que ele precisava ouvir: que eu estava com ele, que seu guia protetor estava em seu coração, e ele estava protegido para ter esse ato de coragem.
e ele falou com o gigante. encarou-o de frente, apesar do seu medo.
depois soltou-se de mim e ficou debaixo da água, deitou seu corpo em uma posição-semente. era lindo ver sua coragem nascente. era uma honra presenciar essa prova, essa forja em pleno fogo. deu um orgulho gigante ver a dignidade de sua atitude, seu enfrentamento, sua disposição.
Gabriel, o honrado cavalheiro que hoje, aos seus 4 anos de vida, teve sua iniciação. dura iniciação.
mas ele atravessou.
deixei-o a sós por um instante, com a certeza que agora ele estaria bem. Francisco já chorava pedindo colo, e fui buscá-lo no berço. entramos novamente juntos no banho, e sua alegria de bebê trouxe o bálsamo que faltava para finalizar a história.
e eu só agradecia. agradeci a oportunidade de estar ali, naquele instante, disponível para testemunhar e ajudar nessa aventura. e soube, como só as mães sabem, que esses momentos irão se repetir muitas vezes.
mas a primeira vez marca. e é inesquecível.
depois, com a ajuda do pai (que o presenteou com novas interpretações do sonho), Gabriel voltou lá.
reconciliou-se com Marte, sua potência avassaladora, cortante, mas curativa.
e ficou amigo do gigante.
adjetivos: um poder de traçar veredas
Ele estava impossível! a cada minuto, necessitava de uma intervenção.
a todo momento, eu o alertava sobre
não bater
ter cuidado
não ocupar o espaço do outro
não falar mentira
etc etc etc bla bla bla de mãe.
aí ontem ele me fez uma comparação incrível: o desenho do meu anel (cheio de nós celtas) com o desenho do caroço do abacate. (já viu um? sua casca parece um desenho de raízes entrelaçadas)
fiquei maravilhada. elogiei, espontaneamente: você foi muito inteligente, querido!
ele sorriu. seu olhar, instigado, pediu por mais.
você sabe o que é inteligência?
(ai, a responsabilidade das primeiras definições)
é quando a gente tem idéias boas pra todo mundo.
(foi o que veio no improviso)
ele ficou feliz.
os olhos brilharam.
seu coração ficou aliviado: havia sido solto de uma prisão contraditória.
concluiu: agora não vou mais fazer coisas chatas, mãe. sou inteligente.
então vi a dificuldade que eles tem entre diferenciar o estar e o ser.
se eu aponto só as coisas “chatas” que ele faz, isso o define e marca a tendência para um próximo ato igual.
e ele passa a achar que é assim.
mãe e pai têm que cuidar dos adjetivos. pai e mãe nomeiam.
melhor nem adjetivar. são as ações que contam. nada é permanente.
mas ontem eu apontei sua virtude, coisa que também ando fazendo há algum tempo, mas dessa vez mostrou seu poder transformador,
e ele sentiu-se em casa nele mesmo.
e passou a noite em harmonia, tendo mais meia dúzia de idéias inteligentes.
música de Francisco
Chorava antes de dormir. Um choro aparentemente sem razão, gritado.
daqueles que poderia ter passado em branco: é sono.
Mas apertei bem forte. um som me percorreu, vindo do útero.
O som depois virou acalanto;
melodia simples, singela, bem diferente das complicadas voltas de minha cabeça.
então percebi que novamente celebrava seu nascimento
deixei sair aquela voz e, no transe dessa hora, meus braços viraram as paredes do nascer. o aperto do contato acalmou o choro. no limiar do porvir, o abraço, a contenção, o limite que nos acompanhará nessa existência terrena, mas que também nos mostra que não estamos sós.
ele soltou um longo suspiro, e soltou o corpinho num grande relaxamento. há algo que nos ampara. os contornos de nossa mãe. e esse aperto é bom.
e ele dormiu;
e uma música nasceu.
Chegou, chegou
o filho da harmonia
chegou, chegou
chegou trazendo luz
Chegou, chegou
e veio de uma estrela
chegou, chegou
chegou o meu amor
Chegou, chegou,
nasceu na primavera
chegou, chegou
pra vida alegrar
coisas que filhos nos dão pra pensar e que servem pra tudo na vida
sim, eu posso.
posso ser violenta, se esse for meu jeitinho.
posso ser violenta, se for conveniente.
posso ser violenta, porque às vezes é justificável.
posso ser violenta, porque às vezes é mais rápido.
posso ser violenta, porque preciso de você agora!
posso ser violenta cedendo à sua pressão (e te odiando em segredo por ter me violentado)
posso ser violenta, porque às vezes o outro merece (ou preciso impedi-lo de ser mais violento que eu)
mas tenho que saber que isso não muda nada. na melhor das hipóteses, adia o confronto para um novo momento, onde ainda seremos dois times: o “você-que-me-violenta” e o “eu-preciso-me-defender-de-você”
Não-violência ativa exige energia livre. Exige ficar, e não ceder ao impulso de abandonar o outro à sua compulsão. Exige não ceder à delicia de deitar o braço (mesmo um braço simbólico), à catarse de se deixar levar pelo turbilhão de uma força que, ilusoriamente, chamo de minha, mas é coisa que também me toma, e também me bate.
Não-violência depende de muito amor. muito amor mesmo. incondicional, para que eu te acolha numa atitude totalmente fora de minhas expectativas. e muita escuta.
Abraçar você no seu “pior”, na sua treva de sobrevivência, naquela hora em que você me agarra e quase me afoga como tábua de salvação, é tarefa árdua, quase titânica.
Mas às vezes, eu consigo. E só assim, consigo também nos salvar. Então é tarefa humana.
Depois de ver tudo isso, posso até ceder ao beijo da violência e me enganar, mas dura pouco.
já sei que é preguiça espiritual.
francisco:
língua do B
a boca do bebê baba
e beijo babado de bebê
é bom é bom é bom
entre leites e tomates
– Eu não sou uma pessoa boa. Eu só faço coisas ruins.
– Claro que você é uma pessoa boa, meu filho! que bobagem é essa?
Provocação ou não, a declaração me entrou como uma faca.
Ela me chegou depois de uma bronca: uma espécie de autoconsciência depois da décima arte para puxar o foco. Porque eu não tive tempo de pegar tomates, e veio a retaliação. Não era só fome: era vontade de amor. E o amor estava direcionado a nutrir o irmão menor, de nem quatro meses. Mas Gabriel, de quase quatro anos, o atual filho do meio, não entende, nem pode entender, o que é parar o mundo para precisar alimentar alguém.
É difícil aceitar. Eu bem que sei.
Depois de amamentar e ninar o caçula, fui atender o pedido. Dei mais: tomates, beijos, um abraço e uma conversa. Mas aquela frase doeu ouvir. É claro, havia uma certa dose de chantagem emocional, mas era verdade: ele não podia evitar fazer coisas “ruins”, porque queria atenção. Eu queria você, mãe. E teve. E depois disso, abriu um sorriso e disse: Agora o dia está feliz de novo.
Então entendi, mais do que nunca, que a gente nunca pára de amamentar. E que o começo é só um começo, um grande treino de escuta. E que a rede de apoio daquele começo (para as mulheres que tem essa sorte) pouco a pouco se dissipa, o bebê se incorpora à rotina, e as muitas atividades batem à porta, uma a uma, completamente ignorantes da sua falta de tempo ou excesso de cansaço.
E em várias vezes por dia, é necessário parar.
Parar para nutrir
parar para ouvir
parar para dar.
E a gente. no olho do furacão, tentando não olhar para as tantas coisas pendentes, inacabadas, para as expectativas, pra coisas no fogo, pra um texto pra escrever, outro pra revisar, pra volta ao trabalho, pra casa caindo, especialmente a interna. Sim, é um presente, estupendo presente. A quantidade de ensinamentos que desce com o leite é enorme, cada parada é um transe, se a gente consegue silenciar e escutar.
Mas o silêncio é conquista, ele não vem tão facilmente.
E pesam as coisas que e deveria estar fazendo, as pessoas que eu deveria estar atendendo, o trabalho, os outros filhos, o namoro pendente, os projetos adiados, a vida que mudou completamente, o tempo que insiste em correr além da minha conta, o medo de que o circo pegue fogo sem minha presença onipresente, e o pavor de olhar para o espelho e ver atirada à minha cara, por próprio julgamento, a ofensa:
Eu não sou uma pessoa boa.
Porque eu não dou conta. Porque me falta paciência. Porque me sobra intolerância. Porque sinto calor, porque me sinto sozinha, porque é tão assustador ser responsável por um ser tão frágil, porque tanta coisa… porque não posso ir ao beco diagonal, comprar uma varinha mágica e dizer: tempus paratus! Porque o braço dói. Porque dói não entender por que às vezes um banho mais demorado do que deveria é mais importante, mesmo que ele esteja chorando… E que às vezes concluir um texto (como esse) é tão urgente que não dá pra adiar um minuto. É difícil entender porque não consigo ser igual à todas aquelas que amamentam serenas, sorrindo, com coluna ereta e posando pra foto. Pelo menos não o tempo todo.
Mas sim, há outro lugar possível. Além do caos dos pensamentos. Além das ansiedades.
Porque às vezes acontece um tempo divino, e um olhar me conquista. Um sorriso ainda mamando. uma mãozinha que me toca o seio. Aí o tempo é eterno. E faz valer a pena, além do que dizem os médicos, as obrigações de mãe, os órgãos públicos, as outras mães.
Aí entendo porque a natureza me fez assim, mamífera. Entendo porque alguma coisa lá dentro de mim, além dos moralismos, me fez seguir por essa opção. Apesar do trabalho, apesar das pressões, dos preconceitos, dos medos.
Porque é sublime.
Aí sou nutrida, e a imagem se espelha: com um bebê no meu colo, vejo-me apoiada no colo da Mãe. E tantas e tantas maravilhas me chegam, vertendo em leite divino o amor necessário para enfrentar o que seja.
E isso vai muito além.
Porque depois do desmame, dá pra transformar esse tempo em abraço, em beijo, em novas atenções. Em outras escutas. Vira um lugar sagrado, onde se nutre e se é nutrida.
Então que esse tempo nunca seja ocupado com nada menos importante, é o que eu peço. Assim posso ter coragem para ouvir tantas e tantas frases duras e difíceis, passar por situações novas, e saber que terei condições de ver um sorriso brotando de novo.
Amamentar é só o começo. Ainda bem.
como educar um saci
Gabriel, meu filho
o que que eu faço com você?
Você tá virado do avesso, me virando junto
você é o filho do Menino Maluquinho com a Emília. Sem medo da Cuca, e discípulo do Saci.
você é insubordinável, irreverente, inflexível nos seus fins,
mas flexibiliza os meios, tem ginga da malandragem: olhos atentos.
nasceu com pleno domínio de cada músculo, mas escolhe cair o dia inteiro. Porque tem a cabeça na próxima diabragem.
você é, pintado, meu riso de infância.
você tem a coragem que eu nunca tive para as desobediências.
você é aquele amigo da escola que eu adoraria ter.
mas você nasceu meu filho.
e aí? o que eu faço?
o que que é “educar” você?
o que fazer com essa parte minha que se recusa a se dobrar a qualquer coisa? que não dá aval pra castigo, que cospe (ou esculpe, como vc diz) na ordem estabelecida?
O que fazer naqueles dias na borda do limite, com nervos à flor da pele, com o caçula no colo e o mais velho na frente, quando preciso que você me obedeça e desejo, secretamente, que você nunca obedeça a ninguém?
que raio de função é essa, a de te ensinar limites? te ensinar que o outro existe, e que às vezes você passa da conta?
te ensinar que a existência do outro não é uma pedra no seu caminho? que o outro sente – inclusive dor – e você também?
você, que brotou do pó da obra, na construção desse lar que a gente vive. Você que veio ordenar o caos naquele momento, e agora coloca a casa abaixo.
só me resta te mostrar que você tem coração.
só me resta te ajudar a ouvir sua música, e perceber que com outros a gente faz uma orquestra de tambores em diferentes tons.
você é um desafio, maluquinho, porque é a parte que eu gostaria de ter sido, mas tinha moralismo demais na frente.
espero que meus braços não sejam prisões, mas um trampolim para alavancar seu vôo.
espero ter amor suficiente para superar meus próprios limites, porque às vezes o cansaço é grande. porque me mostra o ridículo de segurar o curso do rio, o curso do riso. quebrar a cabeça da lógica da ordem. espero que você, no meio dessa bagunça, esteja forjando bem seu caminho.
espero que fazer a coisa certa talvez não seja sempre fazer a coisa certa,
entre um tombo e uma bronca, entre um choro e um riso, a gente acerta.
eu sei que você consegue.
eu sei que eu também. porque te amo.



