ele vive com a gente há sete anos. chegou com a nossa primeira casa, na Lapa. suportou a destruição do bairro, as britadeiras, a poluição.
suportou a mudança.
veio pro Butantã, foi solto do vaso, esparramado em terra.
depois de dois anos, floresceu!

de Claudia Pucci Abrahão
pronto. criei coragem e me lancei ao labirinto do bardo. em pleno metrô, em plena manhã.
saí, pela escada, do sonho de uma noite de verão, mas era dia. fui abordada por uma senhora com dentes de asno, que perguntou: pra que lado é o Jabaquara?
nunca o Jabaquara foi tão estranho. Jabaquara era, ali, só um monte de AS enfileirados. não sabia onde estava, muito menos onde era o Jabaquara, e fui salva desse dilema por uma placa sinalizadora, que apontei à senhora.
ao fim do topo da escada, dei de cara com Pessoa. Gigante, na parede, falando sobre as cousas.
nunca as cousas foram tão estranhas.
de pronto ele me levou a outro, porque me peguei pensando que poesia no metrô era flor brotando do asfalto. experimente parar pra ler, é quase uma subversão, atrapalhando o fluxo.
atrapalhando a lógica.
daí senti a flor rasgando meu peito com seus espinhos delicados. e todos os sons do mundo entraram pelos meus ouvidos, finda a armadura, casca rompida.
até hoje não tinha reparado que a poesia doía olhos adentro.
mas melhor é doer, que sofrer virando piche.
na areia, perto da arrebentação, respirava um ser ainda vivo.
chamei, animada, os meninos: olha! eles, com o entusiasmo de sempre: peixe!
peguei pelo rabo, jogando de volta no mar. nem percebi que busquei neles testemunhas para um ato heróico de salvação.
a onda devolveu o corpo. como, se ainda respirava? como se atreveu o ser, assim, a desistir de existir?
constrangida, fiquei sem palavras. mudei rapidamente de assunto: não, eles não estão preparados para saber tão de repente os segredos da vida.
não, eu não estava preparada pra falar sobre a morte. não assim, tão de repente, no meio das férias de verão.
fomos com as crias no mar. primeira vez do Gabriel. terceira do Pedro, mas também parecia a primeira.
chegamos naquele finalzinho de tarde quase noite, mas dando tempo de dar um chego na praia. tomar a bênção, essas coisas. e se perguntar: por que demorei tanto para voltar?
de frente praquilo tudo, eles não resistiram. soltaram as mãos e correram, infinitos, mesmo contra o vento de recomendações. fui atrás, fingindo ser mãe, sendo então mais um pé ansioso de areia e água.
senti, novamente, o caminho percorrido. senti, junto com o vento na pele úmida de sal, que tem muita coisa que assombra, mas nem por isso assusta, e que o medo é só coisa que a gente aprendeu errado.
tão bom foi, sentir novamente os pés na areia espelhada, nem praia nem mar, aquele terreno intermediário-ponte-maleável para água ou terra firme!
que bom foi perceber, também em assombro, que a primeira impressão do mar é tão forte que mesmo a gente que já foi, volta. volta naquele primeiro dia. é como se a pele nova, macia, em contato com tanta intensidade, irradiasse o momento, conectasse pé com pé.
então eu senti no meu pé, cocegando, aquele horizonte aberto daquela primeira lembrança.
foto de Raiji Takano. obrigada, amigo, por eternizar o momento.
agradeço ao meu choro e ao meu riso
a ter vivido dignamente o que foi preciso
agradeço o retorno ao caminho sagrado
agradeço a poesia alheia, em palavras mesmo, mas sobretudo em gesto.
e foram tantos, tantos…
agradeço ter percebido o que desperta na gente um toque de mão amiga
agradeço o som da voz de meus filhos pedindo: “mamãe, me dá a mão?”
agradeço a chuva que lava, que lava, que lava, que lava e que mostra que os céus também choram
agradeço ao amor que renasce não por ser ano novo, mas por ser sempre.
bem-vindo, 2012!
faz tempo que não me dou a mineirices, até porque rótulos me apertam depois de uma estação.
mas não sei se por conta de recentemente mexer em pedras, não sei se por conta de ver fotos de amigos antigos em Ibitipoca, não sei se por conta de qualquer outra coisa, me deu vontade de montanha. de café e de conversa à toa. me deu vontade daquele sotaque calmo, diminutivo, que hoje só me resta vagamente.
assumo: deu saudade daquele tempo sem pressa.
não sei se por conta de saber que a casa onde cresci e fui feliz vai ser demolida e virar prédio. até achei que nem ligava, morando em SP isso é até normal (?). mas será que tem parte minha chamando? Vem aqui um cadim…
não pode ser, né, que parte da gente fique gravada em alicerces de coisas… é só tijolo, areia e concreto! com canos por dentro, tinta por cima, e anos, anos de vida compartilhada, desenhos de giz no quintal traçando caminhos secretos, traçando o mapa do tesouro que um dia eu iria colher. casa sempre cheia, de tantos amigos, de tantas brincadeiras. prontochorei. sua besta, achou que ia passar imune à demolição do concreto da memória?
vou pegar esse trem pra dar uma volta, então, e saber.
e se o vicio só fosse daquilo que eu sem saber via como motor? e se o vicio só fosse daquilo que sempre salvava nas noites de dor? e se o vicio só fosse o vazio às avessas, o véu de esteio da minha ilusão? e se a vertigem que agora me zonza a cabeça é clareza de ver a verdade? em vão?
não.
e se agora tá tudo tão solto que nem as palavras dão conta de nada?
do nada?
além?
No silêncio dos dias, agradeço. No silêncio da noite, espero. No silêncio forçado dos meus pensamentos, descubro. De repente, eis que aparece outra ela, outra coisa, outra eu. Não sei se tem nome de eu, porque vem no silêncio do que achava ser pensamento, achava ser corpo, mas descobri ilusão. De surpresa, cavando espaço na fratura, surgindo de um tremor do corpo, brotando de um choro desmedido e inesperado, um ser que sinto ser. Quase me apresento a ela, tão estranha que me parece, apesar de tão familiar e antiga. Brotando de uma quase perda de consciência, brotando de uma terra devastada. Brotando de um hiato, de uma fenda na continuidade. Surgindo da instabilidade, de uma vida que parte de um corpo que fica, confundindo o que se sabia claro, o que se pensava fixo. Abalando certezas. Anunciando rupturas. Agora, em fricção, agora, em conflito, gerando faísca. Lado A, lado B, lado A, lado B, até que sejam de novo um só. Até que se rompa a ilusão de dualidade. Lado A, lado B. A respiração se confunde, servindo a dois seres. Lado A, lado B. Não sei mais de meus apoios. Percebo a mudança a galope, seguro o que penso inutilmente, sabendo que o melhor é ir, sabendo-me no medo do não-ser. Percebo a necessidade de ser humilde, pressinto a mã(e)o que me ampara, peço para que eu acredite num campo de fé estilhaçada. Nem vítima sou, só ser vivente, talvez espantada com o excesso de ar disfarçado de falta. Aceito o novo (a nova?), ainda que em luta. Entendo a extrema necessidade de outras mãos humanas, ainda que também dormentes, mas carregadas de compaixão. Percebo o orgulho que me ata ao que foi. Peço, porque percebo que só me resta pedir. E agir.
Você chegou de repente. Coloriu de rosa claro nossa casa, sutil. Transbordou uma delicadeza doce, sem excessos, volátil. Encheu de esperança o inverno, chamou música de pássaros, chamou outras flores em volta. Você encheu meu coração de alegria, você alterou meu ritmo, você mexeu nos meus líquidos, conectou o meu ser à lua, você me deixou redonda, você também me fez flor. Abrandou meus movimentos, me fez rir. Você, flor de inverno, não pertence à primavera. Sua estação foi uma só. Sua missão foi, e é, colorir o cinza, esquentar o frio, anunciar tempos de outras flores em abundância. Você é minha eterna sakura, gerada no amor dos ventos gelados. Efêmera, partiu de mim, pintada em vermelho, para de novo ser todo, para um dia voltar em contorno. Não mais a mesma, mutante que é. Mas ainda flor.
…
respeitando o silêncio dos invernos
…