Ensaios R&J – Sétimo Encontro

Depois de bastante tempo sem que conseguíssemos nos encontrar, marcamos uma noite comum: a quinta-feira que antecedia o feriado da Páscoa. Nesse tempo entre um ensaio e outro, engendrei algumas idéias para cenografia e figurino.

Estava um pouco inquieta para conseguir passar um código sobre a violência que a peça contém, e não cair no erro de ficar somente no encontro amoroso.  A estrutura do texto tem essa atmosfera bélica do início ao fim, e o amor dos dois só chega àquela intensidade impressionante e encantadora porque é cercado pela densidade que gera a violência e, sobretudo, pela iminência da morte.

Além disso, havia a precipitação. A tragédia da precipitação, segundo o ator Eduardo Moreira, do grupo Galpão, quando explicava o uso das pernas de pau na montagem do grupo: o clima de instabilidade. Então fiquei imaginando como trazer isso à cena. Pensei em colocar um balanço no palco, depois me veio à mente uma rede de pesca com leds, conformando um céu estrelado, gerando um véu que protege Romeu e Julieta, onde eles poderiam também se pendurar, sugerindo a trama da outra realidade que eles plasmaram com seu amor. Cheguei a tentar descolar uma rede, quando a luz da consciência bateu sobre minha cabeça. Era óbvio que não teria tempo pra isso. Mesmo se conseguisse, ia passar mais tempo tentando pendurar a coisa do que ensaiando com ela.

Retornei do meu delírio ainda inquieta. Arame farpado? Poderia ser. Seria ótimo ter arame sobre o palco, mas voltei ao problema da falta de tempo. Talvez projetado. Descolei, certa vez, um retroprojetor que gostaria de experimentar em cena, ver que efeitos podemos gerar colocando objetos nele. Me pareceu mais adequado ao tempo que tenho, e ao tamanho da cena. Mas ainda assim queria algo concreto sobre o palco, além dos atores.

Depois percebi que tudo isso era uma grande ansiedade porque não conseguia ensaiar, e estava tentando me apoiar em recursos externos. O mar infinito das possibilidades de encenação, a parafernália para me tranquilizar porque não tinha o essencial: O humano. Eu tinha passado por uma semana absolutamente pragmática, burocrática, e com risco de transformar um processo até então bem prazeroso num tormento. Pela graça de algum passarinho que piou de madrugada, lembrei que a pesquisa era, simplesmente, a ação das palavras sobre o corpo, sobre os sentimentos. Está tudo no texto, e com um bom trabalho com os atores, imagino que essa atmosfera possa ser ressaltada sem necessidade de muitos elementos. Mas essa é sempre a opção radical, e também é a mais próxima da que escolhi como pesquisa. Então percebi como é fácil, nesse momento do processo de direção, que a mente divague pedindo socorro, que o espaço cênico seja preenchido por muitas coisas – mesmo que essa não seja sua opção, tudo por medo de não ter atingido o essencial, por medo de que o código não seja claro. Mas se Peter Brook faz com um tapete…

No meio disso tudo, acabei indo assistir ao filme sobre (e para) Pina Bausch, de Win Wenders. Fui sozinha, numa tarde de terça, pedindo por inspiração como quem pede por água quando se tem sede. Então recebi muita água, e em abundância. Então pude também derramar os meus rios sobre testemunhas silenciosas, o escuro e a amplitude da sala de cinema. Eu já havia sido vítima do rapto inevitável do trabalho do Tanztheater Wuppertal, mas aquilo é um sempre-susto. E o que já era uma das minhas referências há muito tempo tornou-se a definitiva pra esse trabalho. Nada me parece mais adequado: um palco aberto com poucos elementos, e seres deixando que seus corpos sirvam ao inexplicável. Lembrei da referência de Romeu molhado, e mais uma vez divaguei com terra e água sobre o palco, mas foi numa conversa com alguns amigos, Bruno Ribeiro e Renata Oliveira, que cheguei em algo possível: um palco forrado por algumas rosas e pequenas flores de papel crepon, um figurino claro e molhado que vai se sujando de tinta vermelha. Simples e realizável.

Além da plástica inspirada por Pina, colhi mais uma pérola de seu trabalho: o efeito cumulativo das ações repetidas. É um dos traços de identidade da sua poética, não era novidade para mim, mas revendo agora, à luz do efeito reator que observo em Romeu e Julieta, percebi que isso pode se dar também na camada das ações físicas, além do efeito gerado pela carpintaria do texto. Claro, isso pode ficar bastante estilizado como uma dança, mas também pode se sutilizar em alguns gestos. O corpo move a ação, a ação se acumula e revela, para alem dela, o nosso pathos. Ainda não sabia exatamente como usar isso em cena, mas guardei a possibilidade.

E quinta à noite, cidade fervendo de calor e vontade de festa, mais uma vez nos reunimos. Garbel estava viajando para visitar a família, então éramos Cris, Dani e eu, e também a Renata, que convidei para esse encontro. E do último ensaio para esse, a única coisa que tinha ficado no lugar era o fundo infinito do estúdio. Parecia que todos passavam por um tempo de provações, e não vou entrar em detalhes porque o assunto não diz respeito só a mim, mas posso dizer que, nesse dia, fazer um ensaio de Romeu e Julieta e falar de amor foi praticamente uma ironia dos deuses. E como a ironia está bastante presente no texto, imaginei que estava tudo certo.

Estamos realmente vivendo tempos estranhos. E estranho também foi ver que eles estranharam o fato de terem se atrasado mais de uma hora e não terem sido recebidos com impaciência, mesmo com todos os problemas que justificavam. Porque hoje é estranho ter problemas pessoais, porque também é estranho ter vida pessoal quando se trata de trabalho. E a essa estranheza chamam profissionalismo, e não ao constante esforço de fazer o melhor dentro do ofício que você escolheu realizar. E o fato de ter o amor como regente de nossos encontros, como a tônica de nosso trabalho, ser motivo de surpresas, deveria ser motivo de espanto. Porque não poderia ser de outra forma, ainda que fosse pela simples coerência com o conteúdo que estamos burilando.

Esses pequenos detalhes no campo das relações, mais que as guerras, ou a tensão evidente das ruas, ou qualquer outra coisa que vêm à mente ao pensarmos na palavra violência, é o que deixa para mim evidente a necessidade desse texto hoje, bem como falar do amor incondicional. Somos todos permeáveis. Romeu foi permeável, e daí o seu ponto de virada ao trágico. Aceitamos a violência como algo natural, inerente, e não como algo mecânico, mas passível de direcionamento. E o problema da violência é que ela parece terrível para quem a vê de fora, mas irresistível para quem sente o impulso. Ao entrar na rede de ilusão traçada por esse impulso, somos manipulados como “joguetes do destino”, e só retornamos desse transe momentâneo pelo esgotamento da energia vital, ou pela imagem da consequência. É, portanto, uma energia tão potente quanto o amor, e seu maior antagonista. E o importante, na análise da peça, é perceber que isso não acontece apenas fora, mas também dentro da egrégora formada pelo casal. Apesar de compartilharem momentos de pura perfeição, em que talvez estivessem acima desses sentimentos, são humanos como todos nós, seu lugar é na terra, reino de todos os sentimentos. E esse “subir e descer” é parte de seu movimento. O branco, em contato com a terra, não está impassível de se colorir.

E essa era a camada que faltava, ainda, à cena. Então, antes de começar o aquecimento, conversamos um pouco sobre as idéias de flores vermelhas, somada a algumas sugestões da Renata de uma poeira colorida. Depois me ocorreu também misturar tudo isso àqueles lança-confetes de festa,  uns canudos que estouram liberando papéis coloridos, que também podem sugerir um estouro de uma arma – e para a cena de Mercúcio pode funcionar bem.  Dani sugeriu que eles começassem a cena montando esse cenário, molhando o figurino, e achei bem interessante, porque logo de cara já se apresenta a linguagem ritualística que estamos priorizando, sem espaço e tempo cronologicamente definidos. Pensei em usar o pó para delimitar um círculo. Coisas que só poderemos experimentar numa próxima vez.

Dali, partimos para o ensaio da cena. Começamos com o baile, que já estava mais firme, apesar de ainda patinarem no texto. Gostei de perceber que o que trabalhamos no ensaio anterior, o jogo e a sensualidade da cena, ainda estavam ali. E algo ficou bem claro: quanto mais o texto era dito durante o jogo físico, melhor ele ficava. Sem a pressa para o próximo verso, podendo preencher os entreversos com ações, sem se prender a uma musicalidade obrigatória. Tivemos bons momentos. O jogo está bem claro. Não consegui fechar ainda uma partitura, porque isso implicaria em ficar parando, e não tínhamos muito tempo. Anotei momentos que gostei, e fomos adiante, para a cena do balcão.

Eu estava com receio dessa cena. Como disse, passei a semana pensando se não deveria colocar algum elemento no palco, qualquer coisa que desse a mínima idéia de um balcão, ou um jardim, ou qualquer coisa. Além do delírio da rede de pesca e do balanço, cheguei a cogitar uma escada -o já comentado pedido de socorro ao objeto concreto. Mas como eu não tinha nada disso naquele momento, pedi para que fizessem como na cena do Baile: que começassem em uma diagonal, cada um em uma ponta, e aos poucos fossem se aproximando, pensando no mesmo jogo da outra cena: um pega-pega sutil. E os dois foram desenhando os momentos com os corpos, e uma dança muito bonita apareceu. Então não eram apenas Romeu e Julieta na cena do balcão, mas dois adolescentes rolando pelo chão e curtindo o amor recém-descoberto. Muitos beijos. Cris preferiu fazer a cena sem camisa, e adorei o resultado. Então percebi que o baile e o balcão não eram duas cenas diferentes, mas a mesma cena em momentos diferentes. Ambas tratam da delícia do encontro – porém, na segunda, já existe a informação mais clara do perigo iminente. Então percebi uma aplicação possível à estrutura de acumulação da partitura física inspirada por Pina Bausch. A mesma pulsão, alguns mesmos movimentos, em crescente de intensidade. E o efeito-reator também se desenha sobre os corpos.

Além disso, mais uma descoberta: percebemos que nos momentos em que o texto era dito durante uma ação, inclusive sendo entrecortado por ela, seja por por um beijo, ou por uma respiração, um movimento, aí ele brilhava. Aí não era declamado, e sim vivenciado. Aí era o ponto em que a poesia se corporificava, porque também era sentida com os poros.

O mais engraçado é que isso aconteceu justamente num trecho que para mim era um problema pessoal. Nessa fala de Romeu:

Romeu – Ai! Mas nos teus olhos tem mais perigo

que em vinte espadas de inimigos.

basta um doce olhar do teu olhar

e ficarei imune a qualquer ódio.

Toda vez que eu lia isso, um espírito de porco se aproximava do meu ouvido e cantarolava Tiro ao Álvaro, do Adoniran.

(…) Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano (…)

Confesso que tenho minhas cretinices, mas isso me atrapalhava muito. E justo nesse pedaço, Romeu resolveu falar enquanto beijava Julieta e caminhavam juntos, como um único corpo. Foi tão, tão lindo, que entendi, nesse ponto, o que deveriam fazer durante o texto inteiro. E isso tudo se deu com eles ainda lendo papel nas mãos, lendo o que ainda não estava decorado. Posso imaginar onde pode chegar, quando estiverem com olhos e mãos livres.

Passamos a cena duas vezes. Um esboço de partitura se desenhou. Mesmo com os problemas que temos, mesmo que ainda, em alguns momentos o texto soe declamado, na maior parte do tempo o jogo está presente, e a atmosfera é muito bem preenchida. Há muita potência nos corpos, e há um querer genuíno aproximando os dois. O afastamento só se dá pelo prazer do novo encontro, para manter o jogo aceso. Assim como diz o trecho:

Julieta – (…) Boa noite, boa noite!

Ah, que essa doce calma que me enche o coração

encha também a sua alma!

Romeu – Vais deixar-me assim, insatisfeito?

Julieta – Mas que satisfação esperas ainda, essa noite, de mim?

Romeu – Tuas sagradas juras de amor,

em troca das que te jurei.

Julieta – E as que antes de pedires eu dei?

Pois seria melhor que não as tivesse dado!

Romeu – Por que razão, amor, quer retirá-las?

Julieta – Assim, uma vez mais, poderia lhe dar.

Mas estou desejando o que já tenho.

Minha bondade é como o mar: profunda e ilimitada.

Quanto mais eu te der, mais tenho, pois ambos são infinitos.

E mais uma vez, sobre um fundo infinito branco, passamos por essas palavras. Cristiano manifestou a delícia que é dizer esse texto. Dani acrescentou que nunca teve dificuldades para decorar, mas que no caso dessa peça essa resistência se apresenta. Vendo o ensaio, acho que essas duas observações se complementam, porque fica óbvio que é um texto para ser vivido, e não apenas dito. É evidente a influência da ação de um sobre o texto do outro, e talvez seja a cena o lugar em que ele deve ser totalmente memorizado. Porque é pela ação que ele faz sentido.

Gostaria de ter experimentado a versão em inglês, para sentirmos juntos o movimento e a música no idioma em que o poema foi originalmente escrito. Mas assim como no ensaio de hoje compartilhamos do texto sua ironia, também sentimos a escassez do tempo. Talvez num próximo encontro, com o texto finalmente decorado, isso se dê. Mas em escala de prioridade, não está em primeiro plano.

Fiquei com a impressão de que ainda há muito a fazer, mas que algo importante já foi conquistado. O que me tranquilizou foi sentir a atmosfera deixada no estúdio depois do ensaio, prova de que o essencial se apresentou. Agora falta lapidar a pedra, que aparentemente já foi descoberta da terra. Não sei se terei tempo suficiente, até a apresentação da cena, para que isso aconteça, mas esse é o rumo que gostaria de tomar a partir de agora.

Combinamos os próximos encontros: como Dani e Cris estão reestreiando o Orfeu Mestiço (do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos), na semana seguinte não conseguiremos nos ver. Pedi para que passassem o texto juntos, em algum momento, para que finalmente possa ser decorado. Teremos agora apenas dois encontros antes da apresentação: o ensaio geral no próximo sábado e um ensaio no meio da semana que antecede o final de semana da apresentação.

Então, entre amor e chocolates, nos despedimos.

Ensaios R&J – Sexto Encontro

Nessa semana, conseguimos um dia comum para Romeu e Julieta. Resolvemos ensaiar no estúdio de video da ESPM, onde leciono, espaço amplo e quieto, que era exatamente o que precisávamos. Agradeço ao meu amigo Luiz Fernando da Silva Jr, coordenador do Núcleo de Imagem e Som, por essa chance de um mergulho no fundo infinito.

A cidade já pulsava o outono, mas ontem choveu bastante, ou o suficiente para deixar o paulistano ainda mais agitado, além do já normal de uma sexta-feira. Antes de começar o ensaio, almoçamos juntos, compartilhando as percepções sobre a densidade do mundo nesse momento. Realmente, ninguém escapou de uma semaninha enfrentando leões, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas. Pessoalmente, eu mesma me engalfinhei com o Banco Santander, e me perguntei com sinceridade quem precisa de famílias inimigas tendo conta em banco e devendo pra ele. Uma prova de amor incrível não deixar que esse veneno penetre no sentimento, alterando ânimos, motivando cobranças, ativando desesperos. Manipulando o outro, para que me dê o que eu quero.

Há algum tempo tento me livrar da manipulação: a dos outros dirigida a mim, a de mim para os outros. Mesmo que a intenção seja das melhores, mesmo que a causa seja nobre e o resultado valha a pena. Mesmo que.

Tentando não manipular, estou evitando, também, ter muitas concepções prévias da cena. O que tenho feito é me colocar a serviço do ofício: gerar o encontro nas melhores condições possíveis, e ver o que dali brota, nesse momento, com essas pessoas. O que vem a partir do texto. Então se é que posso falar alguma coisa sobre esse processo, é que ele tem o texto como ponto de partida, e quando digo texto não são apenas as palavras escritas. É o espírito da peça. Em suma, estou tentando ouvir bastante antes de concluir alguma coisa. Em algum momento me perguntei se isso era mais insegurança que proposta, mas depois dos últimos ensaios tenho percebido que vale a pena. Apesar da ansiedade, apesar do desamparo que isso dá, apesar do salto no escuro, apesar da pressão do tempo, apesar da pressão do sucesso, apesar de.

Começamos o ensaio com um aquecimento bem rock, pra aterrar mesmo. Pra evocar a intensidade além do poema, pra descer pra carne, pro fogo, pro desejo. Pra esse instante adolescente e intenso, do qual já nos distanciamos um pouquinho. Depois de um tempo, começamos a cena do baile, que hoje ganhou contornos mais nítidos. Cris entrará tocando o acordeon enquanto Dani faz uma dança em espiral, que desde o primeiro dia surgiu e eu sempre achei ótima. Eles se olham por um tempo, até que ela o nota, e Romeu divide esse momento de descoberta triangulando com a platéia.

Romeu – que moça é aquela ali, adiante, que enfeita as mãos daquele cavalheiro?

Ela ensina as tochas a brilhar

e, pendurada na noite sem luar,

é jóia rara em rosto de carvão

é riqueza demais pra um mundo vão

como um lindo cisne entre aves agoureiras

assim paira entre suas companheiras

terminada essa dança, quero ver o seu lugar

e pela pele da sua mão, meu rude toque abençoar.

meu coração já amou? Olhos, desmintam essa certeza!

porque, até essa noite, eu não conhecia a beleza.

Esse texto tendia a ficar bastante declamado, mas aos poucos fomos entendendo juntos que nada dito aqui é pensado previamente, é sempre uma tentativa de definir o indefinível, e nem todas as maravilhas da terra e do céu juntas dariam conta desse absoluto. Pedi para que Cris intercalasse o texto com a música, e isso deu um efeito interessante, porque causava algumas quebras que impedia cair na “musiquinha do poema”, a armadilha sempre à espreita. Também houve uma mudança no tom: Pedi para que ele evocasse a inocência, o sentimento de descoberta de uma criança frente aos seus primeiros espantos. É esse o olhar dele em direção à Julieta, e quando o direciona a nós, espectadores, podemos compartilhar desse desnudamento. Não que Romeu fosse infantil, ou inocente, mas nesse instante é como se nascesse de novo. A instabilidade causada pela visão o leva a um desnudamento e, ao perceber-se correspondido, a alegria do encontro é impossível de conter. E recordamos aquela imagem já trazida pelo Cris, a de um Romeu molhado – e, segundo ele, como se fosse recém-saído do barro. E comecei a imaginar um pássaro, ou partes dele, pelo menos em asas, numa roupa branca manchada de terra. E Julieta em vestido à la Pina Bausch (e olha que nem vi o filme de Win Wenders ainda), branco e com bordas vermelhas, colado em cima e rodado em baixo. E vi também os dois com máscaras, como o yin/yang (como se cada um vestisse uma metade)

Devaneios, devaneios, devaneios vindos daquela dança cantada musicada interpretada intercalada meio alada meio terra meio carne meio espírito

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Dessa forma, seja pelo seu texto seja pela música escolhida – um tipo de tango – a cena se inicia, carregando a atmosfera de uma doce sensualidade misturada ao frisson da descoberta. Dani lembrou-se do vocalize do ensaio anterior, e novamente o evocamos, e ele virou a ponte entre a música tocada e o texto. Assim, intercalando os três – música, canto e texto – podemos instaurar rapidamente a atmosfera pedida pela peça, ainda que, no nosso caso, trabalhemos apenas um fragmento. Esse começo ajuda a suprir a lacuna do recorte e dá o pedal para que, ao chegar no primeiro diálogo entre eles, alguma coisa de fato já tenha acontecido.

E se temos na música e no canto o vigor de um Romeu atordoado, inebriado pelo encanto, temos também a dança de Julieta, com os movimentos trazidos pela escuta de Daniela, trazendo o vigor potencial da personagem, como uma força da natureza em espiral. É claro que não seria essa a dança a se ver em um baile, mas essa camada já temos pelo saber da história, pela narração de Romeu. A coreografia não se preocupa, então, com o realismo, mas também com o desvelar-se. A música de Romeu toca o corpo de Julieta, que, a partir daí, dança os sentidos descobertos, dança a carne exposta do sentimento aflorado.

Ficamos um tempo nesse preâmbulo, até ir para o diálogo entre eles. Numa primeira passagem, foi tudo muito lento, e eu já havia sentido isso no ensaio anterior. De fato, eu havia pedido para que eles dilatassem o tempo, caso quisessem, mas vendo de fora era como se a cena estivesse, literalmente, em câmera lenta. Pedi para que repetissem, dessa vez embalados por um jogo de pega-pega, e a qualidade se transformou completamente. Ainda fizemos alguns ajustes de compreensão em cada verso, e várias opções interessantes surgiram nas diversas vezes que repetimos. É incrível como são infinitas as possibilidades e, a cada escolha, o texto muda completamente. Ao final, acho que conseguimos chegar ao objetivo de trazer o texto aos corpos, e o beijo já estava mais pra dois apaixonados em delírio do que para dois seres alados. O jogo conseguiu se estabelecer, e as palavras se tornaram motores para que esse momento acontecesse. Ufa.

Mas então foi o tempo do ensaio que voou, e só nos restava mais meia hora, e toda a cena do balcão ainda por ensaiar. Senti uma pontada de desespero, pensando no tempo que ficamos numa cena bem menor, e cheguei a pensar em cortar essa cena da nossa apresentação. Depois lembrei que o objetivo era a pesquisa, e não fazia o menor sentido não se dar ao deleite de um outro mergulho em mais e mais palavras. E como o texto ainda não estava decorado, nós apenas o lemos juntos, buscando novas compreensões de cada momento. Para finalizar, assistimos aos trechos correspondentes do filme Romeu e Julieta (versão Baz Luhrmann, nas interpretações de Leonardo di Caprio e Claire Danes). Sempre gostei das escolhas do diretor, de como eles falam de forma terrena, fazendo com que a poesia encarne. É claro que por se tratar de um filme há algumas diferenças conceituais de linguagem, mas justamente por isso percebemos a beleza da simplicidade, do que pode ser dito entre sussurros, entre suspiros, entre sorrisos, na água e nos corpos. Eu tinha um certo receio de apresentar a eles um resultado pronto, mas acho que foi bom para vermos juntos lugares que podemos explorar. Resisti à tentação de cortar trechos difíceis do texto – como fizeram no filme – reafirmando minha fidelidade ao autor e à proposta de entender o sentido de cada um daqueles versos. E como já havíamos passado uma hora do tempo máximo possível, terminamos ali.

E assim os leões da semana converteram-se em tigres e dragões…

Ensaios R&J – Quinto encontro

O nosso quinto encontro divide-se em duas partes: o ensaio propriamente dito e a apresentação da cena a Tatiana Motta Lima, minha orientadora.

Marcamos no Célia Helena às 13:30 (Garbel+eu), às 14:00 (Cris e Dani) e Tatiana chegaria às 15:30. Retomamos o ensaio do Mercuccio, começando por um aquecimento. Ele estava preocupado com o texto, que ainda não estava totalmente memorizado – realmente, isso é uma questão que drena bastante energia do ator, e ele em especial, PHD na arte da auto-cobrança. Já no aquecimento, percebi o peso desnecessário que Garbel carregava consigo, o que dificultaria chegar na energia de Mercuccio, e percebi que eu também carregava esse peso. Não é todo dia que a gente está pleno, afinal. Recém-chegada de alguns probleminhas cotidianos, percebi a muralha me separando do ensaio, e que seria injusto cobrar do ator um salto que eu mesma não estava fazendo. Num impulso, me joguei na cena, levando essa matéria ao fogo da transmutação. Na falta de um interlocutor (que estava mesmo fazendo falta), arrisquei ser Romeu, e isso foi bom pra todo mundo. Fizemos um aquecimento na base do kung fu, pedi para que Mercuccio provocasse Romeu, e aquela brincadeira foi tingindo a cena da energia adequada. Como eu já pratico há um ano, e Garbel praticou por dois, algo mais ou menos (bem mais ou menos) parecido com uma luta apareceu, e a falta de jeito que estava mais para Trapalhões que pra Bruce Lee nos levou ao terreno maravilhoso do ridículo. Assim, entre risadas, o personagem chegou. E assim passamos a cena, ainda limpando excessos. Mas sinto que ainda me faltam palavras precisas para alguns diagnósticos, ou para sugerir ações claras. Fica clara a inexperiência nessas horas, em que me sinto como espectadora, percebo os pontos altos e baixos, mas ainda me falta clareza para saber exatamente o que falar em alguns momentos.

Terminado o ensaio, esperamos um pouco para ver se Cris e Dani chegariam. Eles passaram a noite em um trabalho espiritual, e imaginei que isso seria motivo de algumas surpresas. Às 15:30 em ponto, Tatiana chegou (começo a duvidar que ela seja carioca), e começamos a conversar sobre os encaminhamentos – teríamos apenas 2 horas para tudo. Bem, bem pouco tempo, como sempre, nos empurrando ao essencial.

Comecei mostrando algumas opções nas traduções. Logo em seguida, chegou o casal. Fomos para a sala de ensaio, e resolvemos ir direto para a cena, já que esse era o principal motivo da presença de Tatiana. Começaram a se aquecer, e pedi para que quando estivessem prontos, Cris iniciasse a cena do baile tocando o acordeon.

Quando o improviso começou, a qualidade foi muito interessante. Os dois estavam ainda bastante sensíveis pelo trabalho na madrugada, e não precisou de muito para que uma atmosfera mágica se instaurasse. Digo mágica mesmo, não é um adjetivo que pudesse ser substituído por “linda”, ou algo assim, eles chegaram rapidamente no estado que abre brecha a múltiplas possibilidades do ser. Cris, em um dado momento, somou à melodia do acordeon um canto, uma espécie de vocalize bastante interessante, como um chamado. Dani às vezes o acompanhava, fazendo desse encontro vocal um prenúncio do que viria depois. tE alguns momentos, ela parecia ter sido tocada fisicamente pela música, quase como se os corpos já estivessem ali, juntos.

O improviso foi chegando a um lugar bastante estático. Apesar de ter força, foi se tornando muito etéreo, e eu precisava de um pouco mais de chão na cena. Pedi para que fizessem um novo jogo, uma brincadeira de criança em que, colados costas a costas, Romeu deveria tentar ver o rosto de Julieta, que não poderia deixar. Assim o movimento voltou à cena, e pedi para que eles seguissem até que Romeu tocasse sua mão, código para que o texto tivesse início. Como eles ainda não o tinham decorado, deixei o impresso próximo a eles, para que não descolassem do clima tentando lembrar do diálogo.

A seguir dessa cena, Garbel entrou com Mercuccio. Era a primeira vez que ele fazia a cena assim, intercalada, mas ela saiu com a qualidade que conseguimos chegar nos dois ensaios. Logo depois, pedi para que Romeu e Julieta voltassem, e os atores seguiram no improviso sem texto da cena do balcão. Um pouco depois percebi que a cena tornaria a ficar etérea, então preferi que seguissem a partir dali com o texto em mãos, para que ele se ancorasse nas palavras. E, com um em cada ponta da sala, a cena foi se desenvolvendo, enquanto eles se aproximavam aos poucos. Foi a primeira vez que ouvi o resultado da tradução resultante de tantos cruzamentos, e fiquei feliz com o que vi. Nada me pareceu estranho, ou empoeirado, mas ainda era poético.

Terminado a cena, sentamos para conversar. Não me lembro que horas eram, mas lembro que não tínhamos muito tempo. Tatiana tinha algumas páginas de anotações e parecia satisfeita com o que viu. Aliás, estávamos todos muito felizes. Não conseguíamos parar de falar, tentando dar conta da experiência – assim como Romeu, que busca tantas e tantas palavras para definir Julieta – e do encantamento que o texto dispara, todas as suas múltiplas dimensões e contornos. A dramaturgia-feitiço do Bardo. Burilar Shakespeare é acionar engrenagens antigas, disparar uma máquina que anda por si só. Ensaiar a peça é entender a rotação exata desses giros todos, e se deixar levar.

E assim como no tempo da história, o nosso também era muito curto e urgente. Na síntese do que conversamos, passeamos pelas diferentes possibilidades de interlocutor para o texto – Tatiana sugeriu desde o princípio que incluíssemos a platéia, fosse triangulando mesmo, fosse se “deixando ver”, como um compartilhar público de sentimentos que, de tão intensos, não conseguem se restringir ao âmbito privado. Ela se lembrou, então, de beijos adolescentes em pontos de ônibus, contaminando quem passa daquela libido incontrolável, cujo espetáculo não é feito para o transeunte, mas também não consegue se esconder, por não se conter em pouco. Falou também de um trio que certa vez vira numa pista de dança, três moços em êxtase de amor compartilhado, e como achavam lindo não apenas o que acontecia entre eles, mas todo o mundo ao redor. E entre essas evocações, uma atmosfera de entusiasmo foi se construindo entre nós. Tatiana sentiu falta de uma pulsão também sexual na cena (talvez o que eu estivesse chamando de “chão” fosse “corpo”), o que concordei prontamente. E citou, como não poderia faltar, Grotowsky, falando de sua prece carnal, da indivisibilidade entre o erótico, o amoroso e o sagrado. E falamos do alimento que é beber nessa fonte, e do que gostaríamos que acontecesse na cena, do amor como grande pó alquímico que tinge de ouro e beleza tudo o que toca. É incrível como a cada novo passo em direção a essa obra, fica mais evidente o seu fluxo transmutador, espelho da própria alquimia propiciada pelo amor. Um amor além do romântico, do “amor” banalizado, do amor de Romeu por Rosalina. A palavra é a mesma, mas descreve estados bastante diferenciados, e é esse outro estado que Romeu e Julieta atingem, esse êxtase físico e espiritual, capaz de dar asas e saltar sobre o impossível, e impossível de se conter apenas em dois, e ao qual também chamamos amor. É pleno, é gigante, é arquetípico, mas também é pessoal, encarnado em duas almas que se buscam e se atraem e se querem e se necessitam, e quando juntas, se magnetizam e transbordam sobre que testemunha um pouco de sua plenitude um pouco dessa libido direcionada aos céus, um pouco dessa inspiração de dessa graça por estar vivo.

Aqui, uma pequena digressão. Sempre desconfiei que a cena do balcão era a vivência desse êxtase não apenas pelos personagens, mas através deles, pela platéia. É por essa capacidade de ressonância que vivemos essa parcela um pouco maior do infinito. E é o desejo que isso não acabe que nos leva a torcer para que o quase impossível aconteça, para que a mensagem chegue, para que o plano vingue, para que eles despertem juntos, para que o amor continue. Finda a possibilidade, fica o gosto da querência, e daí segue, o insatisfeito espectador, com sua missão de plasmar ele mesmo esse amor no mundo. Porque uma vez experimentado, prova ser possível, e é justo nessa cena que ele, o Amor, desce dos planos superiores e mostra sua face encarnada na nossa existência.

Julieta – Só teu nome, em ti, é meu inimigo.

Não és um Montecchio, mas tu mesmo

Afinal, o que é um Montecchio? Nem um pé,

nem a mão, nem o braço, nem um rosto,

nada do que forma um corpo humano. Toma outro nome!

Um nome, mas o que é um nome?

Se o que chamamos rosa não fosse rosa

não perderia ela seu perfume. Então, Romeu,

se também não se chamasse Romeu,

seria ainda a face do meu encanto.

Romeu! Renuncia o teu nome, que não é parte de ti,

Em troca dele, toma-me a mim, que já sou inteira tua!

Romeu – Aceito! Eu farei o teu desejo

Por ti serei, então, rebatizado.

Não mais serei Romeu, mas sim Amor.

A cena do balcão é, portanto, muito mais que uma declamação entre dois amantes. É um ritual de morte, em que ambos perdem seus nomes, seus contornos, abandonam antigos servos e passam a servir apenas a essa divindade. Nessa cena, instaura-se o templo do deus-Amor, que nada mais é que a face iluminada do próprio Absoluto. Um deus que pode não apenas ser reverenciado, mas também vivenciado – é contemplação pela fusão, pela perda dos contornos.

Julieta – (…) Minha bondade é como o mar: profunda e ilimitada.

Quanto mais eu te der, mais tenho, pois ambos são infinitos.

Através do balcão, abre-se a janela à sublime capacidade humana se escalar o divino. E as palavras feitas poesia não são declamações, mas tentativas de dar palavras ao belo, tentativas de colher em vocabulário restrito toda a abrangência da experiência mística, mas também carnal, daquele momento. É maior que o mar, maior que qualquer astro celeste pode descrever, mas também é o prosaico, o simples, uma troca de palavras entre dois adolescentes que, em contato com tal força, sentem-se acima de qualquer coisa. Também é a imprudência, também é o falso recato, também possui o reino das pequenezas humanas. Não é o amor entre os deuses, mas entre encarnados, com toda sua sombra e confusão, deslumbramento e luz.

Não exatamente com essas palavras, fiquei com a sensação de que todos sentíamos isso da cena. E também concordamos que faltava a ela justamente esse dado mais cotidiano, essa quebra trazida pelas pequenas coisas concretas. Saber, claramente, a ação que cada palavra comunica – ou, como diz Tatiana: “cada palavra está ancorada em o que eu quero do outro, ou uma pergunta, mas sempre uma ação. Vocês tem que pensar que estão sempre fazendo alguma coisa, e não dizendo”. A palavra é meio para se chegar a algo, não tem o fim em si mesma, na pronúncia declamativa. E assim volto ao sentido da pesquisa, buscar as ações em cada verso. O afeto – potencial para afetar – de cada palavra.

Conversamos também sobre um movimento que Shakespeare faz no texto, alternando planos mais elaborados (por exemplo, com versos rimados) com mais prosaicos, em que a fala é mais direta. Tatiana percebeu que esse movimento também já está na cena, e achou interessante essa alternância. Isso me fez pensar em realidades sobrepostas: eles são simultaneamente sacerdote e sacerdotisa do amor, e também Capuletto e Montecchio, e também dois adolescentes que querem se pegar e se beijar até o infinito, e também os desejos concretos da platéia que se projetam nessa vontade. Camadas, camadas, camadas, elaboradamente construídas, e que tentamos decifrar e reproduzir. É essa a partitura escrita pelo bardo, pelo menos na nossa compreensão.

E tudo isso passa pelos aspectos técnicos. “a quem eu me dirijo agora? qual o tom de cada palavra?” O cuidado para que o estado declamativo não se instaure, o cuidado para que o doce clima da poesia não torne o texto uma melodia sem contornos, e já citada ação contida nessas palavras. O colchão de intenções construído atrás do texto. Ficou clara a necessidade de experimentar mais e mais, alternando estados e possibilidades, para que essas camadas se sobreponham também na memória do corpo dos atores. Porque o corpo, e só ele, é a âncora de tudo o que já foi dito até então.

Nesse momento, já havíamos passado mais de meia hora do ensaio, e o grupo seguinte já nos esperava há bastante tempo. E assim como Romeu e Julieta, não conseguíamos nos despedir. Para finalizar, Tatiana comentou rapidamente a cena de Mercuccio, de como sentia que em alguns momentos perdia-se o foco da intenção, e a cena virava “cena”. Entendemos o que ela queria dizer. Em alguns momentos havia muita elaboração de elementos, a fala acabava sendo muito direcionada ao público, e perdíamos o essencial: Mercuccio queria que Romeu voltasse, e toda sua evocação dirige-se essencialmente a ele, ainda que triangule em alguns momentos. Se o foco vai muito para o espectador, o objetivo do personagem se perde.

Só então entendi o que já sentia na cena durante o ensaio, mas não conseguia diagnosticar com precisão. Depois, conversando com Garbel, delimitamos a essência do que deveremos fazer.

Saímos felizes, depois para um café, e depois cada um para os seus mil outros compromissos, ainda que fosse sábado, ainda que fosse noite. E eu fiquei torcendo para conseguir um dia comum de ensaio, para podermos voltar a esse lugar-montanha-russa, locomotiva do êxtase.

Ensaios R&J – Quarto encontro

Entre uma semana e outra muita coisa acontece, e entre essas coisas, a Dani conseguiu um trabalho. Sem Julieta, não faria sentido ter um Romeu, ainda mais um Romeu que sairia de um dia inteiro de compromissos, iria ao nosso encontro e sairia para uma nova reunião às 11 da noite. Se eu insisto nesses detalhes, não é por preciosismo de narração, mas porque é essa a nossa realidade, e é ela que levamos à cena. Para cada hora de arte representada temos, em igual proporção, a mesma energia colocada na arte de conseguir cruzar encontros. E conseguir é sempre uma comoção.

Como resolvemos intercalar a cena do baile e a do balcão com o texto de Mercuccio, mesmo sem Romeu e Julieta havia trabalho a ser feito, e já estava mesmo pensando em ter um dia separado com Garbel. E esse foi o momento.

Então eu saí de mais um dia dando aulas em direção à Rua Humaitá. Ao descer a Av Brigadeiro Luiz Antônio em direção ao ponto de ônibus, tentando desconectar de tudo e me sintonizar com a peça, sentia meu ritmo interno totalmente dissonante com o ritmo da cidade. Pessoas passando apressadas, trombando ombros por mais uma ínfima parcela de espaço ocupado no ar. Eu sentia a hostilidade trazida por um dia de trabalho sem sentido, rumo à jornada sem sentido da volta para o lar apertada no busão. Nada que um paulistano trabalhador não viva todos os dias, mas não é por ser banal que a coisa se torna amena. Então percebi que a cidade de Escalus, a Pólis que nasceria do fim da barbárie dos clãs, que daria fim à violência, logrou gerar infinitos clãs de um só, e cada um por si. A cidade não resolveu, com sua lei, a violência. Porque a lei é o amor artificial, e nada que é artifício muda rumo das paixões humanas. Só uma paixão ainda maior – e é dela que a peça tanto fala.

Ao chegar na escola, um pouco de conforto: Garbel me esperava com um copo de água com hortelã, uma proposta de figurino e algumas músicas. Conversamos um pouco sobre o texto, que nesse caso, foi um pouco mexido em relação à cena original. O trecho é quando, logo depois de sair do baile, Romeu resolve voltar à casa dos Capulettos, deixando para trás Mercuccio e Benvólio. É o momento anterior à cena do balcão. Como não temos Benvólio, cortei algumas partes que soariam estranhas sem a réplica.

A decisão de incluir essa cena, ao invés de justapor o baile e o balcão, é deixar (mesmo com cortes) que o movimento da peça ocorra. O momento do baile é o primeiro encontro, o rapto, o êxtase, em que eles, ainda sem nomes, são dois que se tornam um. Ainda no baile há o choque de realidade – quando descobrem, simetricamente, os nomes um do outro – e Romeu sai da casa, junto a seus companheiros, até que ele resolve retornar a Julieta. Esse breve intervalo entre o baile e o balcão dá um respiro à história dos dois, e traz de volta o mundo exterior. Justapor as duas seria eliminar a descoberta do risco, eliminar a evocação jocosa e rude de Mercuccio, que gera um lindo contraste com o texto do casal de amantes. Por esses motivos, Mercuccio ficou, mesmo com problemas no joelho.

Também, é claro, interessava a pesquisa da palavra dita em diferentes registros, em diferentes momentos. Porque, em Shakespeare, a palavra é sempre elaborada, recebendo os contornos da fala de cada personagem. Começamos, então, pelo entendimento do texto, pelo movimento proposto pelas palavras, pelas nuances. Logo depois, Garbel começou um improviso. Hoje a música funcionou, e pedi para que ele resgatasse a energia juvenil de Mercuccio, seu turbilhão, e assim ele começou. E ao som de David Bowie, relembrei quando estavámos Garbel e eu, há mais de dez anos, quando ficamos amigos, naquela mesma situação – mas na época, ele me apresentava poemas de Drummond num solo que fizera. Na época, eu era fotógrafa e amiga do seu amigo, e iria registrar sua cena para o folder da peça. Lembrei do susto que foi ver a poesia passando por sua voz, de tão crua que ficou, tão presente e aterrada. Lembro que tive uma epifania líquida, chorei sem parar por meia hora, e ao fim da sua apresentação, já éramos amigos. Uma década depois, lá estava ele evocando Mercuccio, e eu senti os anos que passaram escritos no seu corpo, que obviamente não era o mesmo. Essa visão sobreposta me trouxe certa comoção – aliás, tenho sentido muito isso nos ensaios.

Ao final do improviso, dos elementos trazidos ficou uma maçã que, para minha surpresa, foi pisoteada em cena. Ficamos um tempo depurando a proposta, entendendo o que era esse momento de evocação. A dificuldade do fragmento é torná-lo simples, porque como é a única cena de Mercuccio nesse recorte, a tendência é colocar elementos demais, complicar o que, na peça, é um momento rápido, contaminado pela urgência do texto. Qualquer detalhe a mais alonga a cena que deve ter esse ritmo. E meu desafio é trazer esse registro, porque o ator, pelo seu momento de vida, seu fluxo interno e sua pulsão, está mais para Hamlet que para Mercuccio. É sempre um esforço fazer com que a maçã não vire uma caveira. Então percebi que, apesar de ser um improviso, teria que ser dirigido, porque a energia que espontaneamente se apresentava, apesar de ser bastante potente, levava o ator para um lugar mais crítico, mental, reflexivo, tempo esse que não é do personagem.

Apesar disso, o vigor necessário à cena se apresentou, assim como o entendimento das intenções do texto. O próximo ensaio traria novas camadas.

Ensaios R&J – Terceiro encontro

Conforme combinamos na reunião anterior, iríamos nos encontrar numa escola de educação infantil na Rua Humaitá, espaço que o grupo de pesquisa do Garbel ocupa há  quatro anos. Marcamos na quinta à na quinta à noite, único dia possível a todos.

Essa foi mais uma semana de muito calor em SP. Por alguma razão desconhecida, meu joelho esquerdo passou a doer muito, e apesar de ter provavelmente forçado no treino de Kung Fu (que pratico), imaginei que alguns fatores emocionais também teriam sua parcela de responsabilidade. Nosso ofício de construir sonhos está sempre rodeado pela densidade do real, e todos nós temos sempre que lidar com a fricção entre a paixão pelo teatro e o descaso público. Todos trabalhamos muito, saímos de um canto a outro da cidade, de uma aula a um ensaio, e essa é rotina constante dos trabalhadores da cultura, termo atual que define o ofício. E se bem estamos guiados por nossa vocação e propósito, também aprendemos a surfar nessa instabilidade.

Todo esse prólogo vem trazer um contexto para o ensaio dessa noite. Eu saía de nove horas dando aula em direção ao centro, mancando, cansada e feliz, a caminho da escola. Na mochila, levava o tesouro da semana: os livros e o texto final. E alguma idéia de como trabalhar com os atores.

Chegando na escola, Garbel me esperava na porta. Ali mesmo deu a notícia: estava também com o joelho zoado. Por um segundo achei que era uma piada cósmica aquela sincronicidade (depois descobri que a piada era de Saturno), e aquilo me deu alguma presença de espírito. Obviamente, ele não poderia passar por um trabalho físico intenso, o que dificultava a cena de Mercuccio e Romeu, cujo movimento é evidente. Logo depois, chegaram Dani e Cris, também recém-chegados de um longo dia de muitas atividades. Nos saudamos entre sorrisos sinceros, reconhecendo, em cada um, o quase absurdo do desejo que nos movia além do cansaço.

Ao entrarmos na escola, um espaço grande e acolhedor se revelou. Estávamos cercados de pequenas mesinhas coloridas e pelo menos cinco ventiladores ligados. sentamos no chão de cimento para iniciar o ritual, e Garbel comunicou a eles seu problema do joelho. Como, frente ao fato, minha idéia de começar com um aquecimento coletivo não seria a melhor, passamos uma vez o texto recém-chegado, para ir entrando no clima. Ficamos felizes com o resultado. Como não havia ainda trabalhado a cena do balcão, pedi para que eles a lessem na versão de Onestaldo. E assim redefinimos o recorte: cortaremos a cena de Romeu e Mercuccio anterior ao baile. começaremos com o baile em si, seguido da breve cena em que Romeu resolve retornar à casa dos Capuletto (e o protesto de Mercuccio, que pode ter uma ação mais baseada na palavra) e depois parte da cena do balcão.

Voltamos ao texto do baile, primeira troca de palavras entre Romeu e Julieta. Entendido o movimento interno do soneto, a ação de cada palavra, pedi para que eles fossem para a cena. Cris trouxe seu acordeon, e pedi para que ele entrasse tocando, configurando a festa, enquanto observava Julieta dançando. Foi muito interessante ver a partitura criada pela Dani, que já trouxe movimentos alternados de expansão e contração, típicos de Julieta. Assim, ainda com o texto em mãos, passaram uma vez a cena. Em seguida, pedi para que deixassem o texto e improvisassem livremente, tendo o mesmo ponto de partida, mas sem necessidade de se ater somente à cena do baile.

É sempre impressionante o que acontece nesses momentos de evocação. Minha única sugestão foi pedir para que eles sentissem a atração, como se fossem pólos opostos de ímas, e o que acontecia ao se aproximar ou afastar. Daí teve início a partitura. Deixei que ficassem um tempo, nisso, e foi quando eu resolvi colocar uma música.

Bom, esse foi um capítulo à parte. Não dá pra esperar muito de coisinhas de plástico feitas sob trabalho escravo do outro lado do planeta. era pra tocar algumas músicas da trilha de Amelie Poulain, cuja delicadeza combinava com o momento do encontro, mas para minha surpresa, ela resolveu tocar a seleção que eu havia separado para Mercuccio:  Queen e David Bowie. E a música entrou no susto, sem qualquer sutileza. Como ninguém esperava, deu uma qualidade louca à cena: Os dois aterraram. Saíram do idílio romântico e foram pro corpo, pro sensual, pro lugar onde deveriam estar. E eu percebi o grande perigo da cena, o risco da morte iminente. Percebi o desperdício de ficar somente no amor pueril, lugar bem comum de se cair, especialmente na cena do balcão. nesse momento, eles grudaram, e daí veio o resto da peça transbordando em seus corpos: veio também a tragédia. Veio a dor. A separação e o resgate. Em determinado instante, eram eles complementos, um corpo encaixado no outro como yin/yang. Eram pleno movimento na completude. E a caixinha made in China ainda fazia seu show: parava a música no meio, mudava de faixa, parava de novo, era um espetáculo de brutalidade. Acabei deixando rolar esse caos um pouco, porque criava um ambiente meio hostil, meio instável, porque nunca dava pra saber quando a música ia pular, ou parar, ou mudar. A energia os levou, tal como a máquina da peça, à morte compartilhada. E eles ficaram parados por um bom tempo, e nós olhando, e eu sem saber se eles esperavam que eu desse o corte, mas sentindo que a cena ainda acontecia. Deixei que eles decidissem, pelo desgaste do momento. E assim foi. Ficaram ainda alguns minutos ali, vivendo aquela morte em silêncio. Até que ficou claro o momento em que não eram mais Romeu e Julieta, mas Cris e Dani.

Depois, conversando, falamos de algumas coisas, em especial desse fim. Entendi que a cena do balcão, apesar de ser o momento do êxtase, já carrega, em potência, a história até seu fim. é o ápice do amor, mas justo por isso, já carrega a dor. E é essa dualidade que aterra a cena, que os torna gente de carne e osso, e não seres alados em diálogo etéreo. Porque por mais linda que seja, a poesia tem que ser permeável a cortes, e dela poder escorrer sangue.

Enfim, marcamos o próximo ensaio, entre os mil compromissos de cada um, nessa grande cidade. Garbel me acompanhou até o ponto de ônibus, uma pequena subida da Rua Humaitá em direção à Brigadeiro. E nesse caminho, por um instante me descolei de mim e vi dois amigos de joelho zoado mancando, cada um de um lado, ladeira acima, e falando do poder do bardo. Era realmente patético. E no espaço entre a sujeira do centro e o céu estrelado, nos despedimos.

Ensaios R&J – Entreato: As traduções

Até esse último ensaio, tinha conseguido reunir algumas das traduções oficiais: a de Beatriz Viegas-Faria, de Carlos de Almeida Cunha Medeiros, a de Bárbara Heliodora, e a de  Oliveira Ribeiro Neto, além da que estava disponível na web, no site de obras de dominío público, cuja tradução não foi creditada. Também tinha em mãos a versão que Christine Rohrig fez para Marcelo Lazzaratto (que gentilmente me enviou, a título de pesquisa) e ainda esperava chegar pelo correio a tradução em verso de Onestaldo de Pennafort, que encomendei de um sebo. Essa última foi a versão utilizada como base pelo Grupo Galpão, e despertou também meu interesse. Resolvi que não ia começar a trabalhar antes de ter todas essas traduções comigo, para que eu pudesse realmente fazer uma escolha, dada a natureza da pesquisa.

Além disso, tinha comigo a edição de Romeu e Julieta na língua original, na coleção “The Arden Shakespeare” que, além do texto, traz diversos comentários sobre a época, a obra, o sentido de algumas palavras e trocadilhos. Essa edição também contextualiza a peça, comparando os diversos “quartos” (como eram chamadas as transcrições das peças vendidas na época do bardo), e esclarecendo sobre o que os historiadores consideram a versão mais fiel à montagem originalmente encenada. Também cita as diversas fontes da história de Romeu e Julieta, história já popular antes que Shakespeare a eternizasse, inclusive com suspeitas de ter se baseado em fatos reais. O livro cita especialmente a versão do italiano Luigi da Porto, de 1530 (Romeu e Julieta de Shakespeare tem data estimada para 1596), cujo enredo já carregava todos os fatos, e vários personagens – além do casal, também o Frei, Mercuccio, Páris, e obviamente, o mote da briga das famílias inimigas e o duplo suicídio. Segundo o Arden, as contribuições de Shakespeare à história são – à parte de seu incontestável valor poético – alguns ajustes para que as cenas tenham simetria, ressaltando a tensão entre os opostos, entre outros “detalhes” que fizeram da história revelasse outros aspectos além do seu enredo.

Finalmente, depois de duas tentativas fracassadas de entrega, chega em minhas mãos o último livro, na sua segunda edição. O que o sebo descrevera como “levemente deteriorado” era, para mim, uma viagem no tempo. Páginas amareladas, palavras em verso, e um prefácio lindíssimo do tradutor-poeta. Destaco aqui algumas partes:

“(…) figurou a cogitação de se tornar possível no Brasil, mercê de traduções fiéis, a representação das grandes peças do teatro universal.

Para tal fim e por intermédio de sua Comissão do Teatro Nacional, promoveu inicialmente o Ministério, em fins de 1936, um inquérito entre escritores, artistas e intelectuais, com o propósito de apurar quais as vinte peças, de todos os tempos e de todos os idiomas que, aos quesitos de serem obras primas incontestes e de terem sentido universal e humano, juntassem ao mesmo tempo o de serem capazes de despertar o interesse do grande público.

Dentre as peças mais votadas, salientou-se, como era natural, Romeu e Julieta, a mais popular, a mais compreensível e todas as latitudes, na qual extravasa a mais simples, a mais popular e compreensível das paixões humanas, o amor, o amor espontâneo, impulsivo, avassalador, exclusivista, que vence todas as contingências, que triunfa da vida e das convenções sociais, que nasce de um olhar e não morre nunca, porque, segundo a Bíblia, é mais forte do que a morte.”

Sobre a escolha da tradução em verso, ele ressalta:

“(…) era forçoso que observasse a mesma forma do original, ou seja, a forma alternada entre prosa e verso, na qual se acham vasadas todas as peças de Shakespeare.

Essa condição, parecendo à primeira vista secundária ou considerada dogmaticamente impraticável,  – tal o interesse com que os tradutores em prosa, de Shakespeare e outros autores do gênero, servindo-se de argumentos especiosos, se empenham a estabelecer a priori que toda tradução em verso será necessariamente infiel – é, ao contrário, fundamental.

Negá-lo seria negar preliminarmente um truísmo, isto é, que “a poesia e a prosa constituem não somente os dois mecanismos da expressão verbal, mas duas tendências rivais do espírito humano, os dois modos de conhecimento que as criaram”.

E ainda:

O motivo circunstancial da presente tradução foi, conforme já dissemos, uma incumbência do Ministério da Educação. Mas suas razões profundas de nossa parte foram, por um lado, uma natural predileção pelos poemas de amor – que outra cousa não é essa peça – e, por outro, um encantamento estético jamais arrefecido, e desde os longínquos tempos do deambular notâmbulo da mocidade, pelo crepúsculo matutino, hora entre todas misteriosa e cheia de uma inefável poesia, hora de Julieta, hora de Romeu e Julieta.

Cada obra de arte e, em especial, cada obra literária, tem seu estado de espírito particular, o seu clima próprio, a que correspondem determinados aspectos da natureza e a estes determinada hora. E assim como Macbeth, com seus três temas do sono, do sangue e do crime, é a tragédia da noite profunda, Romeu e Julieta é a tragédia da antemanhã, dos primeiros albores do dia, dos primeiros “rubores de luz”, desse instante indeciso e sutil em que já não é noite e ainda não é dia”.

Lia esse livro no ônibus, a caminho do trabalho. Ao ler esse último trecho, em especial, tive que parar. Comecei a chorar, besta que sou, arrebatada pelas imagens sugeridas, que já confirmavam minha intuição sobre do que a peça fala, afinal: de algo sublime demais para a densidade do mundo, como o orvalho da manhã, que frente a uma maior brutalidade do sol, evapora. Porém, existe por um tempo, deixando em cada um a experiência do sutil, terreno do amor.

Podemos ler a história como um amor interrompido por uma tragédia, mas também podemos percebê-la como a força imprevisível do amor que, apesar de todas as situações adversas, consegue encontrar um berço para florescer, ainda que por um tempo. Ao ler essas palavras de Onestaldo, percebi tudo como um grande poema do alvorecer possível, como um prenúncio do amor incondicional que podemos manifestar mas que ainda é, por ser novo, inconstante entre os dois mundos. O amor de Romeu e Julieta é o que sentiríamos se conseguíssemos viver constantemente em estado de graça, e eles são os arautos desse estado de espírito humano.

Mas voltando à tradução: a partir desse momento, já decidido por uma tradução em verso, mergulhei nas infinitas possibilidades da palavra. Depois de escolher o recorte das cenas, resolvi que iria ler em todas as opções. Logo fui descartando algumas pelos seguintes critérios: rebuscamento excessivo, tradução às vezes literal sem se ater à musicalidade do texto, entre outros. Ao fim, fiquei principalmente com a de Onestaldo de Pennafort e a de Christine Rohrig, com algumas consultas ainda à de Barbara Heliodora. As primeiras tomaram decisões opostas: a primeira é em verso, a outra em prosa. A de Bárbara é em versos decassílabos. Assim, tomei como procedimento o seguinte padrão: lia o verso no original, percebendo em que momentos havia métrica mais formal, ou rima, e quando isso era quebrado. Percebi o sentido desse ritmo, a quem se dirigia a palavra, o quanto cada opção revelava o íntimo estado das personagens, e o quanto o respeito a essa alternância dá ao texto sentido. Também percebi, apesar do meu inglês básico, que a fala poética do autor não é, por isso, rebuscada. Há uma simplicidade juvenil nas palavras, e a poesia está mais nos trocadilhos e nas imagens sugeridas que por malabarismos da língua, que tanto torturam os atores e os espectadores.

Entendendo isso, fazia o seguinte: lia o original e entendia o ritmo, a música – não apenas a métrica, mas o lugar desde onde os personagens falam – e tentava antes, com minhas palavras, esboçar o que seria minha tradução daquilo. Depois comparava às escolhidas, agradecendo cada caminho arduamente já percorrido, e todas as pérolas colhidas. A de Christine, sendo em prosa, não usei tanto no texto final, mas sua clareza e simplicidade ajudaram a trazer do texto o que ele realmente queria dizer, sem distrações de estilo. A de Onestaldo chega a momentos sublimes, e essa carpintaria verbal foi muito inspiradora para que eu me arriscasse, também, em versos próprios. Assim, o resultado final é uma grande mistura de tais referências, onde também tive o deleite de poder navegar em palavras e, com isso, entendesse profundamente o sentido de cada uma delas no texto.

Somando tudo, foram seis dias de trabalho para apenas quinze páginas de cena. Mas esse ritual de passagem foi, sem dúvidas, a iniciação que eu precisava para ir para a cena com mais confiança de estar realmente entendendo alguma coisa daquele universo. Claro, estou longe de achar que está tudo apreendido, mas trabalhar tão intimamente não apenas com o texto, mas com tantas possibilidades que ele transpira, liberou diversas imagens que poderão ser levadas aos ensaios. E sendo a pesquisa justo sobre o que se dispara na cena a partir da poesia em movimento, era essencial que cada palavra fosse conscientemente eleita, e não apenas colhida ao acaso.

carta-prólogo de mim para mim

ainda pra peça.

Querida(o) amiga(o),

Há muito tempo aprendi que não tem como se transmitir registros ou sentimentos. Isso acontece por ressonância, e só o que podemos fazer é vibrar. Então te mando essa mensagem, esperando que ela reverbere no seu vazio. Talvez ainda haja uma partícula de alguma coisa que possa conduzir o dentro de mim para dentro de aí, de você, que também sou eu. Ou serei, ou fui. Sei lá.

Não vou ocupar tanto seu tempo, eu sei que vc tá ocupado. Eu sei que tem trabalho da faculdade, eu sei que também tem trabalho fora, estágio, eu sei que carta tá fora de moda e minha letra é horrível, mas eu não sei escrever em arial. Eu sei que você diz que não tem mais tempo de inventar outros mundos, porque nesse já tem muito trabalho. Eu sei.
Mas outro dia eu te peguei sonhando, lembra aquele dia que você quase perdeu a hora trocando de roupa no quarto? Naquele dia você abriu uma fresta no tempo e eu te raptei, e você nem viu, porque achou que só tinha passado um segundo olhando praquele brinquedo que você nunca lembra de tirar da estante. Você não entendeu como foi que a hora passou tão rápido, porque não lembra da volta que deu comigo. Não lembra da volta que fez naquele tempo sem horas. Sem números. Naquele tempo de sempre presente.
Eu sei que pode parecer confuso, mas no começo é assim mesmo. É que a gente deu vinte e um giros no tempo da experiência. Naquele momento em que ninguém tinha que fazer nada, e a vida passava pela pele como se fosse gelatina. Lembra daquele tempo permeável? Em que nada parecia melhor do que hoje parece idiota. Ou antigo. Aquelas experiências de verdade que entram pelos poros e marcam a pele por dentro, que nem tatuagem, formando o mapa de quem a gente foi. Ou será. Ou ainda é.
Por isso, eu evoco seu tempo de agora pra te dar um presente. Virar sua pele do avesso e mostrar o que fica de dentro pra fora. Mostrar as marcas do que ficou, dos momentos em que você realmente viveu. Porque sentiu. Porque não tinha que fazer. Porque não tinha que nada. Porque só se deixou ir.
Que nem aquele dia em que você fez o pedido praquela estrela que pisca só durante um segundo no exato segundo antes de nascer o sol. Lembra que você ficou esperando, tão cheio de desejos e expectativa? Lembra da duração de cada um daqueles segundos? Lembra do que passou? Do que passa? Lembra?

PARA VER O SOL

Essa cena foi escrita em processo colaborativo com o queridíssimo Otávio Dantas e as alunas do grupo Tangerina (teatro da ESPM).

Me diverti horrores escrevendo. Delícia de viver isso aqui!

Três meninas (6 a 8 anos de idade) dormem em um quarto. Aos poucos vão abrindo os olhos com um sorriso “sapeca”. Fazem sinal de silêncio umas para as outras. Vagarosamente e, na ponta dos pés, caminham até a porta. Observam fora do quarto se comunicando com gestos. Fecham a porta e comemoram alto. Gritaria total. Se abraçam, pulam e dançam.

Sheila – Finalmente, finalmente!

Manu – Põe a música! A música!

(Manu corre e aperta play em um aparelho de som.

Todas dançam muito animadas uma coreografia em cima de uma música das Spice Girls. Até que uma delas interrompe.)

Sheila – Pára, pára!

(Manu corre para desligar o aparelho).

Sheila – Burras! Burras!

Isa – O que a gente faz?

(Vão todas novamente averiguar em silêncio o que ocorre no corredor do lado de fora do quarto.)

Sheila – Graças a Deus ninguém acordou.

Manu – Tem certeza que ela não desconfia?

Sheila – Do nosso plano?

Manu – A Isa falou bem alto hoje.

Sheila – A mamãe é meio desligada.

Isa – Eu, né? Você é que foi lá perguntar pra ela que hora que o sol nasce.

Sheila – Ela nem desconfiou, sua besta

Manu – A gente falou que era pro trabalho de ciências.

Isa – Tá bom… muitos anos de planos quase vão por águadaixo.

Manu – Água abaixo, Isa.

Sheila – Tá tudo certo, gente, eles tão dormindo. Desencana!

(pausa. As três sentam no chão lado a lado)

Manu – Quantos minutos será que demora?

Sheila – Sei lá. A gente sempre dorme e quando acorda o sol já tá lá no céu, né?

(Sheila tem uma idéia)

Sheila – Quantos sonhos você tem?

Manu –(contando) Ser bailarina, ser bonita, ser filha da minha mãe pro resto da vida…

Sheila (cortante) – Não, ô! Eu tô falando dos sonhos que vc tem de noite!

Isa – Eu tenho um bem grande e outro maior que o infinito!

Sheila – Não é maior que o infinito senão você não acordava nunca!

Manu – Mas por que vc quer saber disso?

Sheila – Pensa bem: Se a gente dorme e sonha e acorda no final do sonho, pra saber quanto tempo  esperar a gente tem que saber o que?

Manu – Sei lá, ué!

Isa – Fala aí, ô!

Sheila -(em tom de revelação) Quanto tempo dura um sonho!

(pausa para pensar)

Manu – Sei lá, ué, nunca contei!

Isa – Se for pesadelo demora mais.

Sheila – É sério, quanto dura?

Manu – Assim…Quantos minutos?

Isa – Ah, eu queria que um sonho demorasse muitos poucos minutos!

Manu – Eu queria que um sonho demorasse a vida toda!

Isa – Tá louca, ô? A gente só ia ver o sol nascer velhinha!

Manu – É verdade! Acaba logo, sonho, pro sol acordar de uma vez!

Sheila – Acaba sonho! Acaba!

Isa – Ô suas tchongas, isso só funciona se a gente tivesse dormindo!

Manu – Ah é, né?

Sheila – E agora? Como é que a gente conta o tempo?

Isa – Desencana, vamos brincar!

Manu – Até o sol nascer?

Isa – É, né?

Sheila – Se a gente desencanar, ele passa rápido!

Manu – o que que passa?

Sheila – O tempo, ô!

(silêncio)

Isa – Brincar, gente!

Sheila – E agora na lista o que é que tem?

Todas (gritando)– Maquiagem!

Isa (não conseguindo falar direito) – Vocês vão ficar… tão… bonitas… e… ai!

Sheila – Isa, você não pode.

Isa – Não posso por que?

Manu – Porque você é pequena!

Isa – Mas eu tenho uma boca bem grande, que nem o lobo mau. (falando alto) pra que essa boca tão grande? Pra falar com a ma…

Sheila (cortando) – Tá bom, tá bom, cala essa boca!

Isa – Peça perdão!

Sheila – (contrariada) Perdão.

Isa – Do jeito certo, por obsésquilo!

Sheila (fazendo uma reverência) – Perdão, senhorita!

Manu – Agora chega, né, Isa?

Isa – Batom! Batom!

Sheila – Gente, eu peguei várias coisas da minha mãe, tipo interna-ci-o-nal! Isa – Eu trouxe isso.

Sheila – Uau, uma sombra!

(Manú põe batom de frente à um espelho, enquanto Sheila passa a maquiagem em Isa.)

Sheila – Azul, Vermelho, Rosa, Laranja… bastante, bastante, bastante…

(Isa se vira e olha no espelho. Grito. As duas tapam a boca dela)

Sheila – Olha isso aqui agora: sabe que batom é esse? Esse batom é de fora, United States of …. (piada que não consegui ouvir). Ele é internacional. Sabe qual o nome dele?

Manu – Não.

Sheila – E-V-A-N (ou algo parecido. a brincadeira é ela exagerar num sotaque frances que na verdade não existe).

Isa e Manu (juntas) – Não acredito!

Manu – Eu quero estar muito bonita pra esta noite. Faz a minha sombra?

Isa – Muito lindo o batom!

Sheila – É caro, caríssimo. Faço sua sombra sim.

Manu – Pode passar laranja e verde.

Isa (passando o batom, olhando no espelho) – Combina com vermelho, nossa adorei. Mas falta alguma coisa. O cabelo!

Todas – O cabelo.

(As três juntas começam a arrumar o cabelo juntas. Abaixam a cabeça até inclinarem o corpo pra frente. Continuam falando assim)

Manu – Temos que arrumar porque hoje é o dia!

Isa – É, hoje é o dia!

(As três levantam o corpo para se olhar no espelho, juntas. Fizeram grandes “chucas”com os cabelos. Meio “xuxa”. Uma um pouco diferente da outra.)

(pequena pausa se olhando no espelho)

Todas – (muito animadas) Nossa! Ficou lindo!

Manu – Eu acho que o sol vai adorar a gente!

Sheila – Agora, madeimoseles, para o banquete!

(Todas assumem uma postura afetada, como se fossem grã-finas em torno de uma mesa. Cumprimentam-se com mesuras exageradas. Sheila volta com uma cumbuca com um pano por cima. Puxa o pano, como se revelasse um prato fino. Na verdade, é uma tigela com uvas passas.  Elas seguem na viagem.

Sheila – Caviar?

Manu – Sim, claro!

Isa – Também quero!

Sheila – Como é que fala, madame?

Isa (fazendo biquinho francês)- Também quero, por favor. (ao ver o que tem na tigela) Eca! Credo!

Manu – Ah, Isa, finge que é bom!

Sheila – Mas é bom!

Isa – Não quero vapássia.

Manu – Uva passa.

Isa – Não quero vapassa.

Sheila – Será que já passou todos os minutos?

Manu – Acho que já deu o tempo! Vamos!!!!

Sheila e Isa – Vamos!!

(caminham até a janela que está fechada)

Todas – 1, 2 , 3!!!

(abrem a janela. Silêncio. Apenas alguns grilos e sapos ao longe. Ainda está de noite)

Isa (tentando alegrar) – Mas o céu tá tão bonito.

Manu – Mas só tem estrelas.

Isa – Mas estrelas estão tão lindas. Elas brilham tanto quanto o sol.

Sheila (decepcionada) – Quanto tempo passou? Às vezes já está quase clareando.

Manu (olhando o relógio) – São 21h40. Tem cara de que ainda demora.

(Todas  em clima de decepção total)

Manu – Mas agora acho que vai passar mais rápido.

(Todas falam juntas alguns lamentos)

(Pausa)

Sheila – Bom, vamos brincar de outra coisa então.

Isa – Tipo?

Sheila – Ah, sei lá… A gente podia… conversar…

Isa – Que mais?

Sheila – Conversar.

Manu – A gente pode fingir que está contando estrela no teto.

Isa – Isso. Enquanto conversa.

Sheila – Legal, legal! Vamos!

Manu – Ai, vai ser super legal.

(deitam nas camas de barriga pra cima)

Manu – Por que será que tem tanta estrela, né?

Sheila – Ué, eu sei! porque o céu é infinito.

Manu – E daí?

Sheila – Precisa de muita coisa pra cobrir o infinito, né?

Manu – E por que será que o infinito é tão grande?

Isa – É por causa dos micóbios.

Sheila – O que?

Manu – Micróbios?

Sheila – E o que é que tem a ver, Isa?

Manu – Ué, os infinitos enormes e os infinitos pequenos.

Isa – A mamãe falou outro dia que a gente tem infinitos micóbios tão infinitos quanto as estrelas do céu.

Manu – Que bonito!

Isa – Então era bom tapar a boca depois de tossir pros micóbios não fugirem da boca.

Sheila – É na hora de tossir, ô!

Isa – São infinitos os micóbios e o céu.

Sheila – Ela não para de repetir essa palavra infinita!

Isa – Eu gosto de falar infinito.

Manu – Eu gosto de falar borboleta.

Isa – E micóbio.

Sheila – Eu gosto de falar pum.

Manu – Mentira! você não gosta de falar pum, tá inventando agora!

Isa – É, você tem nojo de pum.

Sheila – Tenho nada!

Isa – Então por que quando eu solto pum você reclama?

Sheila – Porque pum da gente tudo bem, mas de outra pessoa não dá, né?

Manu – Será que a gente tem infinitos puns?

Sheila – Lá vem você também com esse infinito!

Manu – Mas deve ser, né? Eles não acabam nunca.

Isa – Que nem os micóbios

Manu – Que nem as estrelas

Sheila – Que nem os sonhos.

(pausa)

Isa – Será que o sol já chegou?

(todas correm para a janela. Voltam a fechar a cortina, decepcionadas. Voltam à posição anterior, deitadas na cama)

Sheila – Não aguento mais ver estrela no céu!

Isa (apontando pro teto)- Mas ó, nesse aqui tem estrela maior que o sol!

Manu – Nossa, que lindo!

Isa – Não é?

Manu – Mais brilhante que a lua e o sol todos juntos!

Sheila – Uau, eu tô vendo várias coisas!

Manu – Eu tô vendo um dinossauro na nuvem.

Sheila – Dinossauro não. É um castelo!

Isa – Ah, eu tô vendo um coração. Um não, vários, vários!

Manu – Ai, um coração. Gente, o João. Ele é tão bonitinho. Sabe o que ele me deu? Um bombom. Mas não foi um bombom. Foi um sonho de valsa.

Isa – Nossa, o bombom do amor.

Manu – Agora só estou vendo coração.

Isa – O amor é lindo.

Manu – Mas acho que pra namorar ainda é muito cedo.

Isa – (Sheila já dormiu) Amor não tem idade. As pessoas se olham. O coração bate. Dái tem essa vontade de se abraçar, de ficar junto. Ficar junto pra sempre. Isso não importa a idade. (Manu dormiu). Depois casa. Aí, todo mundo de branco. E arrumado, igual a gente. Não acha Sheila?

(olha pra Sheila, pra Manu. Estão dormindo)

Isa – Sol, eu te esperarei até o infinito! Infinitos minutos. Infinitos minutos de tempo, mais minutos que as vapassas. Mais minutos….

(Isa rende-se ao sonho também.)

FIM

brotinho de peça

(…) Porque dizem que um pouco antes de nascer o sol, tem uma escuridão tão escura que aquelas estrelas que só dormem depois da lua ficam muito maior, mas só por um segundo. Aí é a hora de fazer aquele monte de pedidos que a gente quer ver acontecendo na vida. Mas é tão rapidinho que é difícil ver, e quando dá pra ver é tão rapidinho que nem dá pra falar direito. Então tem que ficar com o olho sem piscar e o pedido na ponta da língua pra gritar bem alto, logo antes do céu começar a azular o tapete do sol. Você já conseguiu ver a estrela no escuro do escuro antes de nascer o sol? (…)

brotando do Arritmia (agora série)

Essa dor aí que você sente, sabe, não mais se saber, esse desassossego de viver? É a primeira chama da liberdade, menina. Quando você percebe que não segura mais nada, quando você percebe que tem as mãos livres…e voa.