brotando do Arritmia (agora série)

Essa dor aí que você sente, sabe, não mais se saber, esse desassossego de viver? É a primeira chama da liberdade, menina. Quando você percebe que não segura mais nada, quando você percebe que tem as mãos livres…e voa.

mais um teco de Juke Box (ainda no forno)

FILHO

Mãe?

Pausa

FILHO

O que é a mulher?

Pausa

MULHER

Fica de pé, parado, ereto. Respira fundo, parado,ereto. No centro, bem lá no centro, vem um desejo espiral de giro ao redor do eixo. Uma graça que se movimenta, padrão de galáxia, uma dança infinita rodando pra cima. Flor com cheiro delicado. Você, meu filho, no centro: só cuida. Se tentar agarrar, ela escapa, dissipa, resseca. Só cuida, gentil. Protege, sutil. Sobe junto, na espiral sagrada, mão a mão, lado a lado, você no centro, a mulher nas bordas, girando e subindo. Você, o esteio, ela, movimento, você, a moldura ela, o momento.

Mulher, ligadura. Você, complemento.

teco de peça que vem vindo

… e não era

plenamente nada

repartida

era e nesse fragmento se

ancorava no que

dava

e dava certo porque

o mundo em que ela estava

tava

desse

jeito tava assim o mundo que ela estava

então a parte

parecia todo

e era

frag

mento

fragmentos de uma peça em gestação

Na gangorra cinema-teatro, de tanto cinemar, volto um tantinho ao escuro de mim, e escrevo. Deixo sair um pouco, pra respirar pro mundo, pra dividir com quem lê. É só um pedaço, mas já dá o tom do que vem. Ainda sem nome. Desculpe. Não posso mostrar muito, tão antes do fim…

“Sentia arder o que não sabia ser. O que ainda não era, porque estava desconectado do resto. Eram fragmentos de ser colados por músculos, tão frágil que era, mas não se dissolvia em pedaços porque a casca era dura. Apesar da delicadeza da pele.

Aproximaram-se a uma distância ambígua, no limite de múltiplos significados. Conspiravam. A pele feita casca, não se sabe o por que, derretia, suava, assim como também exalavam outros humores. Uma quentitude nada estranha tomando corpo, tomando espaço, alterando o estado de consciência. A mente, que julgavam clara, mergulhou no torpor do desejo – e não havia nada, nenhuma substância, um licor que fosse, que viesse do externo. Era uma embriaguez gerada pelo próprio sangue, como proteção de um momento sagrado que não poderia se perder na corrente dos preconceitos. Era quase tóxico. O torpor chegara ao limite da perda de consciência, e as mentes saltaram o espaço-tempo e fugiram, juntas, para o interior da floresta.

Ali, não eram eus. Não eram época, nem endereço. Eram mulher e homem, dois seres que se buscavam e completavam, como se tivessem subido pela escada da queda, retornado ao paraíso perdido e suspendido, por um segundo, a dor de quem caiu e procura o caminho pra casa. Suspenderam todo o abandono de si e, ainda que durasse pouco, abriram de vez a casca protetora.

E ele atirou-se até ela simplesmente como água que rompe a represa, inundando a floresta de água fervente. Ela sentiu o corpo abrir-se sem ressalvas, sentiu o calor do peso atiçando fogueira, queimando o passado, queimando a culpa, queimando o abandono, reconectando cada célula com a outra, reconstruindo o campo sagrado feito corpo de mulher que era pura onda de energia latejante. Já estavam além do desejo – subiram pelo prazer sagrado sem saber o que faziam, foram juntos para outro tempo.

Ao fim de tudo, no silencio do retorno, resistiram à tentativa de explicar o acontecido, de esticar o momento na linha do tempo cotidiana. Perceberam que aquilo não pertencia à frequência dos dias. O estado de embriaguez ainda os acompanhava, agora mais sutil, mas lembrando à mente confusa que eram muito mais do que julgavam ser. Devagar e sem pressa, retornaram à sua época, aos seus nomes, às suas máscaras, mas agora um pouco deslocados de tudo, como quem muda de lugar no mapa da eternidade. Olharam-se como além de amantes, como partes do mesmo ser que se entendem separados apenas por uma suave ilusão.”

(…)

vazou um tequinho de peça nova

Tá bom, eu não aguento. vou publicar só um pedacinho – mas ainda é segredo, não conta. tá bem no começo.

Reverberavam, sentados, lado a lado, escondendo do outro e de si, sem mais poder esconder nada. Ela ria alto, sem freio, deixando escapar parte da ânsia entre os dentes cerrados, tentando frear o inevitável. Olhos se cruzavam rápidos, se demorassem um segundo mais seria fatal, o silêncio não deixaria rotas de fuga. Falavam, então. Cantavam, às vezes, gargalhavam sempre, sempre, evitando as pausas do pós-gozo do riso com novas piadas ou uma súbita seriedade, como se houvesse algo mais sério que a incontrolável entrelinha que, furiosa, cavava espaço.

Enfim, aconteceu.

Foi descuido, depois da décima nona gargalhada, exaustos de tanto achar graça das coisas. Sabiam o perigo da pausa, da brecha que levaria ao portal. Era esse o momento de um tema corriqueiro que se esvaneceu, mas podia ter continuado, havia ainda tanto a se falar, o tempo anda muito instável, na pior das hipóteses teriam assunto. Mas naquele momento, cientes de todo o resto que viria, calaram. E a onda de torpor cobriu a atmosfera de um cheiro doce, irresistível, ainda que ainda resistissem. Antes de tudo, tocaram-se com a densidade do silêncio. Um silêncio aveludado, que fazia cócegas na nuca, que trazia cargas elétricas espinha acima, que tornava líquida, cada vez mais úmida, a fronteira. Não precisaram trocar olhares, trocaram ouvidos. Ficaram ali, em silêncio, amando-se na atmosfera, perderam noção da hora. De ouvir o silêncio, passaram a escutar o ar que respiravam, e sem perceber conspiravam em ritmos alternados, como partes complementares de coisa só. Entoavam um canto ritual, chamado. Sorriam sem se olhar, sabendo que o outro também sorria, provavelmente na exata mesma hora. Eram somente música, e uma só, entoando pelo espaço.

DCC

Lá vou eu de novo falar do DCC. Mas merece, merece, merece.

Ontem, apesar da chuva torrencial, rolou, e foi muito, muito bacana. Pra gente que escreve, poder ver o texto vivo, lido no susto, é bom demais: revela tudo, a força, os problemas. Tem que ter desapego, é um jogo. Mas sempre muito divertido, com cara de papo de bar, daqueles bons sem vontade de parar. Aliás, tem bar também.

Ontem fui sorteada – agraciada pela sorte mesmo: ter o texto lido por Ana Roxo e Tica Lemos, e debatido por Silvana Garcia. Obrigada, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, por esse espaço dedicado aos autores. Obrigada, Dani e Luaa, por me ajudar a cuidar dos meninos enquanto eu ouvia as leituras (sim, ainda se pode levar as crianças, coisa rara por aí). Muito obrigada mesmo.

Depois da discussão de ontem, vou mexer no texto. Mas vai aí como foi lido, pra quem quiser. Pode baixar aqui também, se preferir.

ENSAIO PARA QUARTA DE CINZAS

Uma moça está empunhando uma bandeira. Ela canta, e gira a bandeira, como uma porta-estandarte, enquanto a platéia entra

GLORIA

…Será

Que eu serei o dono dessa festa?

Um rei

No meio de uma gente tão modesta

Eu vim descendo a serra

Cheio de euforia para desfilar

O mundo inteiro espera

Hoje é dia do riso chorar

Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar

Contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá, eu levei

Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar

Contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá

Acredito…

Ouve-se um apito.

Homem entra na cena, olhando por todos os cantos, enquanto fala

HOMEM

É isso que dá colocar nome de gente! Fica tudo abusado, desobediente!

(ele começa a girar em círculos. De repente, se dá conta do que está fazendo e pára)

Apolo! Vem já aqui!

(tempo)

Aqui Apolo! Junto!

(olha constrangido para a platéia)

Na minha casa, cachorro sempre teve nome de galinha, e galinha não tinha nome pra gente não ter apego.

(pega o apito e toca. Desanima)

Gloria, ao ver o homem, arruma-se.

Ela revela ser uma dessas moças que ficam nas esquinas segurando bandeiras de lançamento de prédios.

Observa ao redor. Ao perceber-se sem vigília, arrisca cantar novamente, agora a plenos pulmões, como uma diva dos palcos.

GLÓRIA

…Acredito ser o mais valente

Nessa luta do rochedo com o mar

E com o mar…

É hoje o dia

Da alegria

E a tristeza

Nem pode pensar em chegar

Diga espelho meu

Se há na avenida alguém mais feliz que eu

Diga espelho meu

Se há na avenida alguém mais feliz que eu…

Aos poucos, ouve-se um som de construção de prédios. Britadeiras, marretadas. Às vezes, esses sons se parecem a um rugido de bicho. Também ouvimos motos e carros.

Entra Maristella, também com uma bandeira. Coloca-se em outra posição

Ao vê-la chegando, Gloria interrompe a cantoria


GLÓRIA

Tá fazendo o que aqui? Não era hoje?

MARISTELLA

Pensei que era amanhã!

GLÓRIA

Mas é hoje!

MARISTELLA

Você disse que ia marcar na sexta-feira 13.

GLÓRIA

Sexta já é carnaval, ficou pra quinta, não lembra?

MARISTELLA

Ai meu Deus! Que horas são?

GLÓRIA

Tá no tempo. Se eu fosse você, eu já ia. Ela não gosta de atrasos.

MARISTELLA

Mas e aqui?

GLÓRIA

Se o fiscal passar, eu invento desculpa

MARISTELLA

Não sei se eu quero ir…

GLÓRIA

Você me diz isso agora? Marquei faz um mês, e nem tinha vaga!

MARISTELLA

Ai, Glória, eu morro de medo. E se ela disser só desgraça?

GLÓRIA

É um risco que a gente corre…

MARISTELLA

O que ela te falou?

GLÓRIA

Não posso dizer. É segredo.

MARISTELLA

Então foi coisa ruim

GLÓRIA

Não foi não. Foi ótimo!

MARISTELLA

Coisa boa a gente conta sem medo

GLÓRIA

Quem disse que é medo? Se a gente fica falando a coisa não acontece.

MARISTELLA

Fala só um pedacinho, assim, genérico.

Maristella consente. Faz um suspense, até que fala, esperançosa.

GLÓRIA

Eu vou subir!

Maristella fica esperando o resto da história, o que não acontece.

MARISTELLA

Só isso? 50 paus só pra saber isso?

GLÓRIA

Não foi só isso que ela disse. É só isso que eu quero contar.

MARISTELLA

Subir aonde?

GLÓRIA

Na vida, oras! No palco! Vou conseguir ser cantora, ela disse! Onde mais se sobre?

MARISTELLA

No telhado. Seu gato subiu no telhado, seu gato caiu do telhado, seu gato morreu!

GLÓRIA

Não devia ter contado…

MARISTELLA

Você cantora, e eu o que será? O que será que a vida me guarda? (divaga) Ô Glória! Tô pensando em mudar meu nome. Stella Maris, que tal?

GLÓRIA

Tá parecendo nome de prédio.

MARISTELLA

Você não sacou não? É uma inversão…Maristella, Stella Maris…Será que ela vai achar que dá sorte? Ela faz numerologia?

GLÓRIA

Só tem um jeito de saber, né?!

MARISTELLA

Então eu vou, pronto.

GLÓRIA

Se for, vai já. Já tá na hora e você com você andando o tempo dobra!

MARISTELLA

Seu tempo não é o meu.

Maristella vai saindo. Ao caminhar, percebemos que ela é manca. O cabo da bandeira torna-se uma bengala. Dá alguns passos e vira-se novamente para Glória

MARISTELLA

Fica esperta mesmo pra ver se ele vem. Esse cão tem um olho em cada esquina…

Maristella …Stella Maris…

Maristella sai

O homem volta

HOMEM
Apolo! Apolo!

(tempo)

Aqui Apolo! Junto!

(pega o apito e toca. Desanima)

HOMEM

Nem que eu viva por novecentos anos, nunca vou entender a razão idiota que leva um cachorro perseguir um carro que anda em uma velocidade visivelmente superior à dele.

Passa o tempo

Volta Maristella. Toma seu lugar, sem nada dizer. Gloria espera um tempo, ansiosa, e nada. Até que ela não agüenta.

GLÓRIA

E aí, o que ela te disse?

MARISTELLA

É segredo.

GLÓRIA

Mas eu te contei o meu!

MARISTELLA

Porque quis.

GLÓRIA

Ingrata! Deve ser coisa ruim!

MARISTELLA

Praga de peste não pega.

As duas ficam um tempo agitando as bandeiras

MARISTELLA

Eu não vou agüentar não falar!

GLÓRIA

Eu sabia…

MARISTELLA

Mas você não disse que ela disse que se falar não acontece?

GLÓRIA

Você quer que o que ela falou aconteça?

MARISTELLA

Depende. Não sei

GLÓRIA

Então conta só um pedaço

Maristella hesita, mas acaba falando

MARISTELLA

Estava lá, claro como cristal…(imita a cartomante) No domingo de carnaval, no auge do desfile, você vai conhecer o grande amor da sua vida…Você saberá quem, porque a partir desse momento, sua vida será transformada.

Faz uma pausa dramática, depois segue o relato

MARISTELLA

Serão dias tão intensos que você perderá a noção do tempo e espaço. Você será aquela que sempre sonhou ser, cada segundo será de pleno êxtase, e nada parecerá estranho ou proibido para vocês. Nesse momento, você entrará em contato com uma força divina que mudará toda a sua vida…

GLÓRIA

Nossa…

MARISTELLA

Até que…

GLÓRIA

Até que…

MARISTELLA

Na quarta-feira de cinzas…

tempo

GLÓRIA

Fala, o que tem a quarta-feira de cinzas?

MARISTELLA

Nós vamos morreeeeeeeeeeerrrrrr!!!!!!!!!!!!

GLÓRIA

Morrer de que?

MARISTELLA

Ela não conseguiu ver. Mas disse que era com ele. E ainda disse que seria uma morte linda!

tempo

GLÓRIA

Como ela sabe que vai ser linda se não sabe como você vai morrer?

MARISTELLA

Ela viu nós dois abraçados, sorrindo. E a cara do cão da morte baforando nas nossas costas!

GLÓRIA

Será que ela não quis dizer morte no sentido figurado?

MARISTELLA

Eu tô com medo!

GLÓRIA

Medo de que? Nem é tão ruim assim!

MARISTELLA

Credo, não fala isso não, bate na boca!

GLÓRIA

Viver muito pra que? Pra passar mais tempo balançando essa tralha?

MARISTELLA

Minha filha, e eu vou lá passar a vida nisso? É só até o carnaval.

GLÓRIA

Vai pedir demissão?

MARISTELLA

Fico até conseguir trabalho.

GLÓRIA

Eu tô falando isso há três anos.

MARISTELLA

Você é que é preguiçosa e não corre atrás.

GLÓRIA

Nem você, que é manca.


Ficam um tempo quietas.


GLÓRIA

Você consegue sambar mancando?

MARISTELLA

Sambando ninguém nota a perna.

GLÓRIA

Faz tempo que você é assim?

MARISTELLA

Desde que caiu uma lasca de ferro lá de cima…


As duas olham para cima, para o prédio em construção


GLÓRIA

Lá do alto?

MARISTELLA

É. Bem na coxa.


Silêncio


GLÓRIA

Faz tempo então, né? Esse trabalho… Pensei que isso aqui era um bico antes do carnaval.

MARISTELLA

Todo ano tem carnaval!

GLÓRIA

Então daqui a um ano eu te encontro numa esquina dessas. Isso se você ainda estiver viva, claro!

MARISTELLA

Sai pra lá! Porque não se mata você, ô mau agouro?

GLÓRIA

Eu já tentei. Não deu certo.

MARISTELLA

Como?

GLÓRIA

Pular da cobertura. Uma coisa me segurou


As duas olham para cima, para o prédio em construção


MARISTELLA

E que coisa foi essa?

GLÓRIA

A raiva. Eu tava com uma raiva tão grande que parecia estar parafusada no chão. Uma âncora. Acho que a minha vontade de matar era maior do que a minha vontade de morrer.

MARISTELLA

Você precisa de mais amor no coração, Glória…(percebe que Gloria se ofendeu) Raiva do que, hein?

GLÓRIA

Raiva de ter que morrer levando junto uma vidinha de merda. Não achei justo sair daqui sem levar nada que preste de lembrança.

MARISTELLA

De onde você quase pulou era alto assim, é?

GLÓRIA

Era mais alto ainda

MARISTELLA

Chique assim? Diz aqui que é um duplex, vai ter até cinema!

GLÓRIA

Não. Era um prédio público.

MARISTELLA

Ainda bem, é menos perigoso…


Glória olha para ela, sem entender


MARISTELLA

Se é público, não é de ninguém… Pelo menos você não ia presa.

GLÓRIA

Mortos não vão presos!

MARISTELLA

E se você sobrevivesse?


Silêncio


GLÓRIA

Escuta…Você perguntou em que ano isso ia acontecer?

MARISTELLA

Ué…a previsão não deveria ser pra esse?

GLÓRIA

Não sei, né? Todo ano tem quarta-feira de cinzas. Você poderia morrer em qualquer uma delas.

MARISTELLA

Nesse caso ela não foi específica

GLÓRIA

E se não for agora? E se for daqui a 60 anos?

MARISTELLA

Eu não quero levar 60 anos para achar o amor da minha vida!

GLÓRIA

Pelo menos ela vai ser longa, já que você prefere assim…


Silêncio


MARISTELLA

Ô Glória…

GLÓRIA

Que?

MARISTELLA

Será que eu fui enganada?

GLÓRIA

Se foi, melhor pra você…

MARISTELLA

Eu não sei o que fazer.

GLÓRIA

Então pronto. Não vai no desfile, assiste de casa.

MARISTELLA

Tá louca? Prefiro morrer!

GLÓRIA

Aí é com você.

MARISTELLA

Eu não quero morrer!

GLÓRIA

Quer ser imortal?

MARISTELLA

Eu não quero morrer!

GLÓRIA

Até as estrelas morrem, tudo morre um dia.

MARISTELLA

Eu não quero morrer! Não quero! Eu não quero ser assim, igual a todas as coisas, igual a todas as pessoas, igual a todos os dias, igual a todas as horas! Eu não quero morrer porque eu ainda não sou quem eu nasci pra ser, porque eu quero ver o final da novela, porque eu ainda não fui a rainha da bateria, porque eu ainda não dei um beijo que me fizesse perder o rumo de casa, porque…


Buzina. Som de freada de carro

Homem surge, desesperado


HOMEM

Apolo! Apolo!

Apolo, seu estúpido! Eu disse pra ficar junto, não disse? Idiota, cretino! Idiota! (para o motorista) Seu imbecil, não viu o cachorro? Comprou a carteira? (tempo) É mais fácil matar que pisar no freio, sua besta? (para o cachorro morto) Apolo! O que eu vou fazer sem você? Apolo!


Mais buzinas. Apito de policia


HOMEM

Passa por cima! Passa por cima! Seus canalhas!


Os sons de construção e trânsito misturam-se com sons de bateria de carnaval.

O homem fica no chão, chorando a morte do cachorro.

passagem de tempo.

Maristella cruza o palco girando com a bandeira nas mãos.


MARISTELLA

Glória, cadê você, Glória? Preciso te contar, Glória! Eu não resisti, me joguei na festa! Ela estava errada, Glória! Ela errou! Eu não descobri meu amor! Eu não mudei! Eu estou aqui, Stella Maris, em carne e osso! Minha vida não mudou, Glória! Hoje é quarta-feira…quarta-feira… quarta-feira de rosas!


Ela volta à posição inicial, na sua esquina. O som volta a ser o da construção, porém muito mais frenético, como se fosse sufocar sua voz.


MARISTELLA

Eu estou viva! Eu ainda estou viva! Eu estou viva!


O som vai aumentando até ao conseguirmos mais ouvir Maristella, como se ela fosse tragada pela construção.


FIM

dos cantos

Minha mãe disse que quando… Antes de eu nascer, durante sete meses, eu chorava na barriga dela todos os dias, às 3 horas da tarde. Mas minha mãe não contou isso para mim. Só depois que eu fiquei sabendo. E eu nascia numa sexta-feira, às 3 horas da tarde.

Até que um dia, eu comecei a ouvir um canto. Você ouve?

Eu ouvia sempre, sempre, chamando. A água era pouca, tinha que ir buscar no rio, todo dia, ainda criança. Punha o pote na cabeça e ia, doida pra ouvir o barulho da água batendo aqui em cima na volta. Nem ouvia mais meu pai gritando quando saía, porque já estava escutando era a água…

Aperta o passo, minina, que a chuva ainda tá longe. Aperta o passo, minina. E pega a trilha mais curta, sem essa de pará pra ver bicho ou frô seca no pasto. Se apresse, ô minina, e vem com pão e a cachaça, que o tempo não passa sem essa reza pra se esquecê do que se é.

Mas eu parava, parava que só, só pra ver passarinho. E pegava uma pedra e atirava era no galho, não por falta de mira certa, mas por querer ver o bicho voando. E ele voava, crente que fugia da mira, e eu mirava c´os olhos tão longe que nessa hora lembrava: Tô indo, pai! E voava também, c´oa água na cabeça e a cachaça na mão pesando doído, que sabia que dali a uns gole ele virava o capeta, e depois chorava fundo até dormir pro dia seguinte.

Depois de muito tempo eu entendi a sede que meu pai tinha. E aquela água bateu tanto no barro da cabeça que virou um canto comprido, e eu voei por cima do mato seco com promessa de ver o mar.

Ver o mar… Um monte de água salgada que nem pra beber serve… O que é que move a gente? A mágica? A ilusão? O sonho? Ou a mentira?

do amor em caos cruento I

(*)

Sente

O vapor gelado pelos dentes

sente

a urgência de não esperar a permissão

permita

o selvagem quase sepulto

evita

o perverso da submissão

Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso

recusa

o que é pudico (puto)

mesmo que pareça recato

enxota da alma toda a obediência

dispa-se em meia-noite de lua

no meio da noite do medo. no som da noite do medo.

nem que seja para uma contemplação de si mesma

Resgata a divindade

ser. exatamente

o que a Terra chama

resgata

toda a força que umidece

mas não apenas chora

que empalidece

mas de prazer


Amote a mim

e por isso,

só por isso

também a ti.


(*) esse, entre outros textos, fazem parte da minha primeira experiência como dramaturga. Um processo colaborativo com a amiga Ana Roxo, ainda na ECA, há exatamente 10 anos. A Praça do Relógio estava tomada pela primavera, e na cena final atores saíam correndo de trás de flores gigantes gritando EU TE AMO, entravam num carro e iam embora. uma coisa deliciosa.teve gente que achou besta, mas a gente amou, literalmente.

Um momento especial da vida, mesmo. Essa é a peça que ainda talvez um dia a gente faça.

programa de quinta

Ontem dei um pulo no DCC. Como já comentei, um puta espaço bacana pra nova dramaturgia. Na definição da Fernanda D’Umbra, a debatedora da noite, a roda de samba da dramaturgia. Sem frescura, sem nada, uma hora pra improvisar um texto com tema dado na hora. É um espírito festivo, dionisíaco, delicioso.

Tema? O Inesperado. Taí o resultado

Dramaturgia de Improviso 30.09 – autor Claudia Pucci

DCC – O Inesperado

RUBRICA

Gilda, mulher poderosa,linda,sensual,maravilhosa mesmo, risca um céu estrelado com os dedos. Olha fixamente para o desenho criado. Está satisfeita.

GILDA

(em completo êxtase)

Finalmente:um auto-retrato.

RUBRICA

Ela desenha numa grande tela a imagem vista no céu: um auto-retrato. Pergunta-se, em segredo, para quem poderia enviar a carta,que autoridade mundial teria autoridade mundial para batizar uma nova constelação. O nome? Gilda.

GILDA

(ainda em completo êxtase)

Nenhum lugar seria mais apropriado. Os mapas estrelares são imortais. Sabe-se lá, com essas tecnologias de hoje, o que ainda será armazenado nos próximos quinhentos anos. Mil anos. Mil e novecentos anos. Alguém duvida que existiram as catedrais? (para alguém do público) Você. Você duvida que existiram catedrais? Já foi em Notre Dame? Nem eu, mas você sabe que existe, não é? E ainda existirá. Sabe por que? Porque é grande, imponente, maravilhosa, inesquecível. (faz uma pausa dramática) Agora me diz: Se uma catedral que é uma coisa de pedra fica milênios existindo, imagina nós, que somos gente, matéria animada. A gente deveria ter esse direito também!

RUBRICA

A atriz faz um ar maroto de mistério, como se tivesse a posse da idéia mais genial de todos os tempos.

GILDA

Então eu decidi: Se todos me consideram uma grande estrela, por que tenho que ser imortalizada somente em filmes? Ainda mais agora, que é tudo digital? Virtual? Tem algum cineasta aqui? Vocês agora nem tema dignidade de filmar em película! Não sobra nada! Imagina se acaba a energia elétrica? Quem vai saber de mim? Tudo o que eu fiz,a minha vida toda vai virar sabe o que?

RUBRICA

Gilda pega um tubinho de bolinhas de sabão e começa a soprar bolinhas na platéia. As bolinhas formam bolas perfeitas e absolutamente redondas, dignas de admiração plena. Atingem seu ápice em forma e múltiplas cores e rapidamente desmaterializam-se, como é próprio das bolinhas de sabão. Gilda observa a cena entristecida,como se presenciasse a maior tragédia jamais encenada pela história humana.

GILDA

Então eu decidi: Serei imortalizada como uma verdadeira estrela deve ser: um auto-retrato no céu. Um traçado perfeito ligando pontos brilhantes, compondo a perfeição de um rosto inesquecível: A partir de hoje…

RUBRICA

Ela faz uma longa pausa dramática

GILDA

Serei a constelação das constelações! Gilda.

RUBRICA

Gilda volta seu olhar novamente para o céu,como forma de se certificar que o traçado ainda estava lá. Ela traça novamente o auto-retrato com os dedos, mas sente que algo falta. Alguns pontos desapareceram da perfeição do seu rosto. Indignada, ela se pergunta se alguma das estrelas cometeu a indignidade de cair, atrapalhando a fluidez do traço. Busca novamente o desenho, agora passando da indignação a um leve desespero. Teria sido ela traída pelos deuses? Seria ela mesma uma estrela cadente?

GILDA

Cala essa boca!

RUBRICA

Em total descontrole, ela…

GILDA

Ninguém está descontrolada aqui!

RUBRICA

em total negação do descontrole, ela…

GILDA

Por favor, cumpra apenas o seu papel!

RUBRICA

Eu sou a narradora soberana da cena!

GILDA

Você é uma reles rubrica, não um grilo falante!

RUBRICA

Já me enchi de rubricar adjetivos maravilhosos ao seu respeito.

GILDA

Então vá reclamar no sindicato das rubricas!

RUBRICA

E por um acaso eu disse alguma mentira?

GILDA

Claro que sim! Você me chamou de descontrolada!

RUBRICA

Eu só narrei seu estado psíquico!

GILDA

Eu estava dramaticamente alterada! Com o coração em frangalhos. Descontrolada nunca! Isso é coisa de gente louca.

RUBRICA

Eu só descrevi seu estado psíquico.

GILDA

Só faltava agora eu ficar te dando explicações! Cai fora, você tá demitida!

RUBRICA

Nunca, em mais de cem anos de cinema, alguém reclamou do meu trabalho!

GILDA

Tudo tem a primeira vez.

RUBRICA

Marlene Dietrich, Lauren Bacal, até a chatinha da Vivian Leigh… Todas concordavam com a minha visão cênica!

GILDA

Ela fala pausadamente, como só uma grande mulher o faria: adeus!

RUBRICA

Você acha que se vira sozinha, não é?

GILDA

Gilda, recuperando sua dignidade, prefere o silêncio como resposta.

RUBRICA

A rubrica sai, totalmente digna. Não considera o acontecido como demissão, apenas mais um caso de negação entre tantos que já conheceu. Ela, que era antiga,já conhecia de cor aquele texto, e já sabia que voltaria. Porque ainda que momentaneamente sua presença fosse descartada, já tinha vivido demais com os homens e mulheres desse mundo para saber de sua necessidade. Tamanha era sua solidão que criavam Olimpos imaginários, eleitos entre eles próprios, só para ter a perene sensação de ser tocados e aceitos pelos deuses.

GILDA

Ela, num ato súbito de generosidade, ainda lhe dirige mais três palavras: Até nunca mais!

RUBRICA

Até breve.

FIM